quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Ele me pegou em casa a contragosto. Esbravejando. Xingando. Eu ri. Achei graça. Mudei de estação na rádio. O teu amor é uma mentira, que a minha vaidade quer. Tava tocando isso. E eu nem aí. No banco de trás um casaquinho verde musgo tamanho PP. De alguma garota da noite anterior. Ou da semana passada. Ele é cheio de garotas e pela primeira vez na vida sorri ao pensar isso. Tá certo ele. Bonitão, rico, engraçado e safado. Que mulher não se apaixona por ele? Eu. Eu não me apaixono mais por ele. O que significa que agora podemos nos relacionar. O que significa que agora, posso ficar tranquilamente ao lado dele sem odiar meu cabelo e minha bunda e minha loucura. E posso vê-lo literalmente duas vezes ao ano, sem achar que duas vezes na semana são duas vezes ao ano. E posso vê-lo ir embora, sem me desmanchar ou querer abraçar meu porteiro e chorar. Consigo até dar tchauzinho do portão. Tchau, vou comer um pedaço de torta de nozes e assoviar. Tchau, querido mais um ser humano do planeta. tb

sábado, 15 de novembro de 2008

Quem é o informante???

"O Kurt com sua barriga tanquinho e seu charme de doctor House está lá. E ainda com sotaque gaúcho. Promete ser o sexo da minha vida. Promete ser a noite da minha vida. Vou amar esse homem como nunca amei nada na vida. Penso isso e quase ligo lá pra baixo e peço um táxi. Mas não posso fazer isso com o Kurt. Não posso transformá-lo em mais um garoto gemendo, roncando, sorrindo amarelo e indo embora. Não posso transformar o homem mais incrível do mundo em mais uma mancha de vidinhas emprestadas de quartos de hotel. Não agüento mais que absolutamente tudo seja sempre a mesma merda de sempre. Durmo sozinha comendo um lanche nojento da cozinha do hotel. O edredom tem uma mancha asquerosa. Mas em algum lugar do mundo eu sou a pessoa mais incrível do mundo. E olha que quem pensa isso é o melhor homem do mundo..." T.B

Tem alguém passando as informações...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ta.. eu sou viciada em quem se parece louco como eu...

Olheiras, ossos e escárnio.

Eu não faço questão que ninguém goste de mim, mas fico completamente louca quando alguém gosta. Porque descubro que cada segundo da minha vida foi pra sentir isso. E o que será dos próximos segundos? Não me tire da minha merda pra depois me lembrar que tudo é uma merda. Sem fim, sem fim...
Eu era feliz. Na verdade eu não era nem um pouco feliz, mas pelo menos eu sabia o motivo.Eu quero aquelas ligações superficiais e descartáveis no meio da tarde, que me enchem de irresponsabilidade e morte. Depois a despedida doída, mais uma vez servir ao amor sem saber amar nem um pouquinho, mas pelo menos, nesse caso, ser exatamente o esperado, o correto, o forte, o jeito de se viver como tantos vivem.


E me sentir desesperada por estar levando uma vida normal e ter a opção a qualquer momento para enlouquecer e chutar tudo. Mas quando se está louca e chutando tudo e ainda assim se sente desespero, o que resta? Com você e todo esse amor, eu consigo apenas me largar pelos cantos assustada. Isso é vida? Eu não quero andar duas quadras no sol com você. Porque te amar assim, me dá medo de enfartar ou da minha pressão cair. Não sei. Eu quero deitar e esperar passar tudo. Eu quero te olhar deitada enquanto seguro um copo com água de coco geladinha. Porque você não sabe, mas tenho corrido maratonas e vencido monstros gigantescos para conseguir sentir tudo isso sem arrancar minha cabeça fora. E quando você, ao invés de me esperar no pódio de chegada com pomadas e isotônicos, me olha desconfiado ou entediado de tudo, eu quase desejo que dessa vez eu morra no meio da corrida. Porque é ridículo achar que você faz tudo valer a pena, mas, no fundo, acabo achando que você faz tudo valer a pena. Isso é vida?


Eu queria cutucar as pessoas na rua e perguntar como elas fazem pra ter pernas grossas e filhos pendurados nas pernas grossas. Eu não faço a menor idéia de como se vive, se cresce, se multiplica. Eu só me como por dentro, me corrôo de ciúmes, fico tentando segurar tudo com medo que eu comece a despedaçar no meio da rua. Eu me maquio pouco, como pouco e amo pelas beiradas. Tudo pra eu me arrepender menos na hora de limpar a sujeira. Tudo pra, arrogantemente, não sentir a vida como bicho.


Como eu faço pra ficar perfeita o tempo todo ou virar um bicho estranho e não precisar mais de ninguém? Eu jamais serei o que eu quero e jamais serei o que eu sou sem precisar disfarçar que quase sou o que eu quero. E cada hora eu quero uma coisa. E no fundo eu não quero porra nenhuma. Talvez só encher um pouco o saco, provocar, ser expulsa do peito de todo mundo porque não agüento morar nesses lugares obscuros que são os outros e suas más intenções disfarçadas. Tudo é uma jaula, até minha fuga. Principalmente minha fuga. E eu estou cansada demais. É só olhar pra mim. Olheiras, ossos e escárnio.


Gosto das pessoas fortes e burras. Gosto porque jamais vou odiar o que não amo. Porque quero proteger tanto você dentro do meu peito que acabo andando como se eu tivesse grávida na garganta. Cada vez que eu quero falar ou comer ou gritar ou viver. Vem o medo de que você me saia pelos buracos da cara.

Como é que se vive? Como é que se ama em meio aos fedores e sujeiras e desistências da sua casa? Como é que se espera alguém voltar do seu mundo particular se eu acabo, por conta de um medo absurdo, indo para o meu para não ter que ver você longe? Esperar o quê? A vida secar tudo, murchar tudo. Não quero viver a porra do momento como dizem. Me sinto o tempo todo uma inocente me debatendo nas paredes de uma piada de mau gosto.

Só queria achar a saída e rir por último. Como se eu tivesse tamanho ou força pra peitar assim as coisas como elas são. Ser humano é constatar nosso tamanho ridículo perto das coisas como elas são. Ser humano é a coisa mais linda e sábia a se fazer. Mas ser humano dói em mim de uma maneira tão especial e absurda e assustadora que, em meio a toda essa auto-estima de merda, ganho certo arrogância.

Tenho meu jeito de bloquear a vida fora e mergulhar aqui nessa coisa horrorosa. E lá vou eu voltar pra mim e esperar algum saudosismo escondida atrás da minha porta, com a arma na mão. A porta com todos os trinquinhos. O olho mágico vendo o escuro eterno das pessoas que desistem porque até eu mesma sempre desisto.Aos poucos os olhos se preenchem. As pernas engrossam. Minha voz volta a parecer a voz de uma garota que merece ser amada. Compro uma roupa bonita. Mudo de analista. Escolho uma comédia ou uma revista de fofocas. E então estou pronta de novo. Sou uma armadilha pra ratos. Sem queijo. O que me faz pensar que só atraio quem merece.

Tati Bernardi.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Avenca Partindo

... Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa....
Caio Abreu.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

História de dois desconhecidos os quais eu conheço muito bem

Foi por uma foto e algumas linhas em um mundo virtual que ela o conheceu, um grande sorriso, uma mensagem bonita, e mais de uma hora dentro dos arquivos. Foi a primeira vez que Ela se apaixonou por alguém, por dentro como costumava dizer. Longe dos padrões mais claros de beleza que Ela estava acostumada, Ele povoava a sociedade, e os corações das mocinhas, com seu grande nome e o tal sorriso, que Ela tratou de achar uma semelhança com sua infância. Horas e dias falando daquele moço, encantada, trocaram algumas mensagens, santa globalização, santa internet. Novo encontro, uma nova troca de mensagens, não mais virtual. E segue a vida, emails, mensagens emessenicas, telefonemas.

Aniversário de família, onde a presença dela era fundamental, e a vontade dela era estar ali pertinho, onde tinham marcado um encontro, quase não deu tempo, mas o destino salvou a noite. Tempos depois foi com Ele que Ela experimento novas sensações, as piores, a ira, a desilusão. Ver a traição é algo inexplicável, que Ela fez questão de contar e relembrar todos os detalhes, de forma imatura, inexperiente.

Trocou o sorriso por lágrimas, Ele de pessoa mais bonita que já conheceu virou a pior de todas, com todo exagero que lhe era de direito. Ele nunca pediu desculpas, nem mesmo levou o erro para si, nunca entendeu tal mágoa. Talvez ela tenha entendido algo errado.

Encontrar com Ele era estranho, Ela sempre radiante, murchava, e se abria diante do tamanho que Ele a impunha, fazia questão de ser olhada muito bem por Ele, o qual sabia que aquilo não passava de um jogo, ai Ele entendeu, e passou a entendê-la sempre.

Nunca mais a paixão dela foi a mesma, por vezes ele foi seu ponto de fuga, por vezes ela usara ele p acalmar o vazio deixado por algum outro bobo rapaz. E assim foi, como todo romance, entre encontro e desencontros, as conversas fluíram, eles passaram a se entender.

O sorriso, já não era o foco, foram os abraços, os colos, as mãos juntas, mãos as quais ora se tocavam em carícias, ora se tocavam em amizade. Ternura, paixão.

De certa forma, ele sempre esteve presente, nos piores dias dela, quando adormecida recebeu uma mensagem que a fez sorrir, de forma contida, quase que agradecida por tanta preocupação. Nos melhores dias, onde o sorriso quase não cabia. Ela passou a confiar tanto e amar Ele, de um jeito incompreensível, o qual Ela nunca entendeu e nunca soube explicar. Ele de certa forma também a amou.

Ficaram juntos, separados. Com toda confiança Ela perdeu o medo e no dia certo Ele fez tudo errado, Ela voltou a ter medo e na época certa fez tudo errado. No dia errado, no momento nulo, se entregaram, sem paixão, talvez receio, talvez cumprimento de um trato.
Eles poderiam se culpar, se ignorar. Já existiam histórias, já eram cúmplices de um crime perfeito.

Ela pode apostar quando pela primeira vez descobriu o motivo pelo qual davam certo, mas nunca apostou nisso, aquela não era mais à hora de luta. Aprendeu mais uma vez com Ele, a chorar, chorar em paz, por acreditar que talvez tenha mesmo se enganado na primeira vez. Tentou mudar o que Ela tinha construído, sentindo imensamente feliz, quando o conseguiu.

Você pode apostar que essa estória termina com um final feliz, do tipo fada madrinha, três pedidos, casamentos, e felizes para sempre. Felizes para sempre sim, juntos também, não exatamente como nos contos, mas do jeito deles, com os dois maiores sorrisos que já ouvi falar...

Quem sabe do depois !?!?
De alguma maneira eu tinha de dizer adeus e ao mesmo tempo pedir que você continuasse. Precisava lhe deixar algo antes de voltar ao meu refúgio onde já não havia nenhum espelho, apenas um buraco para me esconder até o fim na mais complexa escuridão, recordando tantas coisas e às vezes, assim como havia imaginado a sua vida, imaginando que você fazia outros desenhos, que saía à noite para fazer outros desenhos .
Julio Cortázar

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Eu quro namorar ele tb!

Acordei atrasadaaaaa.... 7:30 da manhã. Ninguém acorda atrasada 7:30 da manhã, não alguém que leve a vida como eu. Acordo assustada, saiu do quarto, descubro a hora, falo alguma coisa sozinha, que na hra do almoço me contam rindo de mim. Volto a durmir. Acordo, agora, realmente atrasada 9:20 passo dois minutos decidindo se dá tempo ir p academia, tá eu vou, banhooo voando, me visto, tomo café e checo os novos emails, tudo ao mesmo tempo, usar o mouse e calçar meias são duas tarefas incompativeis!

Na passagem subterrânea... ligo p decidir o almoço, prendo o cabelo, escuto música, bebo água, atravessar correndo ou subir as escadas escuras?!? Bommm Dia..... o lixeiro quse me mata do coração, de novo!

Decido que quero viver a futilidade hj, exatamente no final da pior semana, em bsb. No meio do exercício e eu pensando, se estudo p mestrado, faço a carta, escovo o cabelo, ou termino o capítulo da monografia. Foda-se.... hoje eu to feliz e cansada! Não vou estudar, até as 14 pelo menos...

Almmoço, varrer casa, lavar a louça, passar o pano, arrumar a cama, colocar água no umidificador... DEcido ler um pouco antes de ver Dr. House e voltar a estudar. Quando abro o site.... ahhh haaaaa..... PEla milhonésima vez... acho q tenho alguma relação com essa mulher, e olha que não é nenhuma das minhas amigas dizendo isso.... Segue o texto dela, leiam, que eu vou terminar de ver Dr. House e voltar p meu mais novo amor... Robert Dahl!

Meu namorado o doctor House
Eu decidi que tô namorando o doutor Greg House, aquele com cara de “adoro sexo mas sou arrogante demais pra fazê-lo” que passa todo dia as oito da noite no canal 43. Menos as sextas. E sábados. E domingos. Como todo péssimo namorado, ele tem mais o que fazer da vida nesses dias. Já que a vida inteira namorei rapazes que não me namoravam e fui namorada de rapazes que jamais namorei, resolvi namorar o House e fim de papo. Comprei um estoque de Vicodim e um apartamento em andar baixo. Tudo pensando nele. O House pode tudo. Ele pode me dizer que meu cabelo era infinitamente melhor mais curto e mais claro. Ele pode me dizer que eu fico infinitamente mais bonita com uns cinco quilos a mais. Ele pode reclamar que eu cortei a malhação por falta de grana e paciência. Ele pode reclamar da queda hormonal e da minha mania de viver caindo. Ele pode rir da minha vontade de escrever novela ou qualquer outra coisa popular que me encha de dinheiro para eu poder escrever livros quieta ouvindo Nina Simone, da minha mania de cantar Maroon 5 e do fato de eu escrever tudo em primeira pessoa porque, de verdade, acho um saco qualquer outra coisa do planeta que não passe aqui por dentro. E o House super passa, em meus sonhos. Quando vai dando sete e meia da noite (ahhh, a falta do que fazer, já tem uma semana que não aparece um bom freela ou um bom sei lá o quê) tomo meu banho. Passo meus cremes. Coloco uma roupinha pra ele. Me tranco no quarto, no escuro. Vou passar os próximos sessenta minutos vendo vômitos, sangue, paradas cardíacas, berebas purulentas e a famosa “lombar punction”. Mas meu coração não entende nada como desgraça, a não ser a óbvia desgraça do amor. Todos os dias eu acho que vou morrer. E todos os dias ele descobre mil coisas pra não deixar. Porque quase nunca se morre nas mãos dele. E todos os dias ele me magoa terrivelmente com sua amargura e inteligência. E eu deixo porque não tem nada mais sexy do que gente que te odeia. Namorar quem tá cagando pra você, então, é o auge do sexy. Por isso eu namoro o House. Nós nunca vamos casar, ele nunca vai conhecer meus pais e eu sei que divido o seu amor com as garotas pagas. Não tem ilusão, não tem meiguices, não tem roupinha rosa com babados. É preto no branco. É sofrimento puro. É o pior namoro do mundo. Mas como diria minha mãe “quando essa menina decide uma coisa...”.

Tati Bernardi.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Margaridas novas p o final da temporada!

Novas conversas, novas histórias, novos finais de tarde....


Coração Colorido em foto P&B



E segui com meu bom dia, mesmo quando o dia já escurecia. Dei bom dia para coisas rastejantes como meu tapete que sempre bagunça porque meu sapato prende nele e bom dia para meu tapete voador imaginário que me fez dar bom dia ao mundo todo, mesmo para aquelas pessoas que eu nem sonho que existem. Bom dia para todas essas coisas que virão e que foram e que estão. Porque quando se sente tanto a vida não importa nenhum momento solto e não importa que nomes tiverem esses momentos mas apenas toda essa força que sempre esteve aqui. Mas que só agora eu consigo pegar, amassar, apertar e dar bom dia. Bom dia! Bom dia! Bom dia força! Bom dia prolapso da válvula mitral. Eu sei que você está enlouquecido e com medo de morrer. Mas até sua quase morte merece um bom dia. E então vai dar tudo certo. E daria bom dia, hoje, para todas as lanças. Bom dia lanças maravilhosas que me dilaceraram tanto e me trouxeram até a melhor manhã da minha vida. Dou bom dia para todas as minhas cicatrizes. E abraçaria pés na bunda e beijaria caras de lado e velaria sonos de quem já me estatelou os olhos sem esperança de tranquilidade. E mostraria inteiros para quem negocia partes. Porque hoje é o dia de dar bom ao fim da dor, ao fim da vingança, ao fim da espera, ao fim da defensiva. E dar bom dia ao início da primavera, ao início da minha beleza e ao amor. Finalmente. Bom dia ao amor. E bom dia para essa risada que sai livre, solta e que eu nem percebo que é risada porque não consigo olhar pra fora da pele de tanto que é bom ficar aqui dentro. Hoje é o dia de dar bom dia a mim. - Tati Bernardi

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

E isso já é toda a explicação que eu preciso.

Eu tenho medo de esquentar em você e nunca mais fugir do frio. Mas ainda está frio. Então se eu tremer não fala nada, continua me olhando como se fossemos velhos amigos do mesmo disco voador que trouxe a gente pra esse mundo de pessoas que não tremem.

Chegou a hora da calça. Olha, tira devagar. Não dá risada da minha cara. Sei lá o motivo mas me atacou uma bobeira imensa e eu estou tão nervosa. Perder a virgindade da alma pode doer mais do que qualquer dor da adolescência.

Porque eu me sinto com esse gostosinho no peito vinte e cinco horas por dia. Me explica? E você diz que não é pra gente falar nada. E isso já é toda a explicação que eu preciso.

Tirar a roupa é tão fácil. Mas tirar todas as minhas quinhentas peles pra você, só porque é o único jeito de estar com você, tem o frio e a dor e o peso e o medo de zilhões de roupas. Então não ri de mim. Elas foram construídas por tantos dias e meses e anos e vidas. E, de repente, só porque você subiu todos os meus quinhentos andares e não levou um susto quando eu abri a porta, eu resolvi tirar as minhas quinhentas peles.

Então cuida do meu sangue correndo atabalhoado, dos meus músculos tentando sobreviver a tantas descargas, das minhas células desesperadas pra entender tanta renovação e do meu peito querendo vomitar mil anos e devorar mil comidas, ao mesmo tempo, causando esse bolo enorme que não me permite dizer nada do que não sou. Eu canto pra você a minha essência e você batuca no mesmo ritmo. A gente é uma música de sucesso que só nós dois escutamos. E só agora eu entendo que isso é algo bom. (Tati Bernardi)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Seja Bem Vinda!

Entre tudo o que mais me impresciona nesse cidade, é a capacidade da chuva de controlar as pessoas. Em Belém, acho que estamos todos bem acostumados com a sempre presença dela, na verdade, nem notamos muito bem, já é normal, ela cair na tarde quente, ou o dia inteiro no início do ano. Quem de nós nunca, tomou um banho de chuva brincando, ou, um banho de chuva na hora errada?!?!?Aqui ela aparece durante um tempo, depois passa meses, e todo mundo só sabe dizer, 40 dias sem chuva, 100 dias sem chuva. A cidade maltratada, até quase não aguentar mais, os gramados, normalmente tão bonitos, ficam queimados, a poeira vermelha, por todos os cantos. Nesse cenário, as frases feitas no estílo, Estamos na seca, Seca do Cerrado, aqui é deserto, se repetem, mas não menos que, Que calor, Ai pq não chove. A Umidade cai dia a dia, todos os anos, igualmente, e os hábitos os mesmo, Tome água, evite exercícios entre 11 e 16 horas, fique na sombra, não corra, nao se canse, bacia de água. umidificador. Quanto mais tempo de setembro se passa, a esperança da chuva cresce, "DEve chover até o final da semana", e a semana passa e nada, as núvens aparecem, todo mundo torce, comenta, mas no máximo uns pinguinhos, que só servem p deixar as já escorregadias pistas, um pouco piores. Até que chove, uma vez, chove de novo uns quize dias depois, o gramado volta a ficar verde, a umidade sobe um pouquinho, já se usa casacos outra vez. O vento faz as árvores dançarem. E o melhor de tudo é ver felicidade no rosto dessa gente mais seca, que a seca do cerrado. Aqui as pessoas ficam realmente muito felizes quando a chuva volta a aparecer, dá vontade de ficar olhando, contemplando, sentindo o cheiro da água caindo na terra. E eu finalmente volto a respirar.Mas aposto, quando, daqui um mês, ou dois, quando a chuva não parar,voltarmos p friozinho de todas as manhãs, e a chuva de um lado só da rua, vai todo mundo reclamar de novo e esperar pelos próximos 6 meses sem uma gota d´agua!!!!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Homens...

http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=747

"ACIDENTES Segundo estatísticas, homens adultos têm três vezes mais chances de sofrer acidentes fatais do que as mulheres, e são de duas a cinco vezes mais propensos a acabarem no hospital com ferimentos. Isso não significa que os homens são imprudentes, dizem os especialistas, apenas mais vulneráveis às “condutas de risco” – em outras palavras, a agir de maneira estúpida. Da infância em diante, os homens gostam de brincar com objetos potencialmente capazes de mutilar, queimar, morder, aleijar, decapitar ou causar algum tipo de mal. Como eles zombam dos cuidados básicos de saúde e segurança, qualquer sugestão de que não se deve mexer no rádio durante o banho é recebida como um insulto cruel à sua virilidade."

Levando em consideração q em todos os acidentes de carro que eu sofri, eram homens que estavam dirigindo...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

... Vai, passeia no meu carrinho de supermercado. Me deixa ser linda vestindo você. Entra em mim e me enche da sua vida fácil. Outro dia me peguei pensando um absurdo que me fez feliz. É triste, mas me fez feliz. Pensei se isso que você faz, de ficar horas comigo depois de ter ficado horas comigo. Se isso é algum tipo de caridade sua. Porque, veja bem. Somos plantas e pássaros diferentes. Eu sou a bonitinha que lê uns livros e vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará abrir a boca para impor sua vitória. Você coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um guarda-roupas inteiro pra ficar à sua altura. Você é essa força da natureza que deu certo. Eu gasto metade do meu salário pra me sentir como você deve se sentir escovando os dentes. Pra me sentir cabendo no mundo que deu certo. Abaixa esse queixo menino. Abaixa esse nariz. Anda rastejando com esse chinelo verde e o queixo no alto. Você sabe que é superior. Você sabe que pode fazer tudo devagar, o mundo te espera. O resto é platéia. Você sabe que faz as pessoas tremerem a voz. Você sabe que deixa apenas duas escolhas pras pessoas: te idolatrar ou sair correndo. E como eu não sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar as pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho. Tati Bernardi
Só mais um pouco de cala a boca
Vai lá dentro do chalé, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Tira essa sunga molhada. Quer ajuda? Posso te ver tomar banho? Posso jogar água importada em você? Posso te ver contra a luz do sol? Deixa? Fica sério de novo. Isso. Posso fazer um ensaio fotográfico com você? Jogado, descabelado, na rede. E você ainda é o homem mais lindo do mundo. No canto da foto dos amigos bêbados, e você é o homem mais lindo do mundo. Com gorro, no meio da confusão do frio. Escondido embaixo de tanta roupa. No fundo do mar. No escuro. De costas naquela festa chata. Meu Deus, como você é lindo. Não sei direito o que é aurora boreal, mas acho que deve ser algo lindo que se formava enquanto você era feito. Não sei direito o que é isso que eu sinto por você. Mas como é maravilhoso fumar você, cheirar você, tomar você, injetar você. Calar a boca. Sei que é por pouco tempo. Somos plantas diferentes. Pássaros diferentes. Estamos experimentando nossos mundos tão excêntricos. Muito em breve vamos nos afastar com a intensidade de opostos tão óbvios. Você vai ser infinitamente o garoto mais lindo do mundo para suas garotas infinitamente mais lindas do mundo. Todos com dezenove anos. Todos lindos contra a luz do sol. Todos com cabelos de comercial. Todos idiotas e corados e lindos e sem saber o que fazer com muita beleza e pouca idade. E eu vou continuar esperando o meu tipo charmoso, mais velho, mais feio que você, melhor do que você. Mas por agora. Me dá mais um pouco desse cala a boca, vai. Vai lá dentro do chalé, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Me pergunta uma daquelas coisas para eu dar uma daquelas respostas que você morre de rir. Me deixa pirar no seu céu da boca escancarado. Você se joga pra trás. E só porque você e o mundo inteiro têm certeza do quanto você é lindo, você faz questão de sempre se largar no mundo. É a liberdade que só tem quem é infinitamente lindo ou infinitamente feio. Você é livre do mais ou menos e isso me enche de algo que me faz querer cantar pra sua beleza. Eu sou mais ou menos mas nesse segundo, já que comprei sua beleza, sou a mulher mais linda do mundo. Vai, passeia no meu carrinho de supermercado. Me deixa ser linda vestindo você. Entra em mim e me enche da sua vida fácil. Outro dia me peguei pensando um absurdo que me fez feliz. É triste, mas me fez feliz. Pensei se isso que você faz, de ficar horas comigo depois de ter ficado horas comigo. Se isso é algum tipo de caridade sua. Porque, veja bem. Somos plantas e pássaros diferentes. Eu sou a bonitinha que lê uns livros e vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará abrir a boca para impor sua vitória. Você coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um guarda-roupas inteiro pra ficar à sua altura. Você é essa força da natureza que deu certo. Eu gasto metade do meu salário pra me sentir como você deve se sentir escovando os dentes. Pra me sentir cabendo no mundo que deu certo. Abaixa esse queixo menino. Abaixa esse nariz. Anda rastejando com esse chinelo verde e o queixo no alto. Você sabe que é superior. Você sabe que pode fazer tudo devagar, o mundo te espera. O resto é platéia. Você sabe que faz as pessoas tremerem a voz. Você sabe que deixa apenas duas escolhas pras pessoas: te idolatrar ou sair correndo. E como eu não sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar as pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho. Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que você não diz e vendo o que você não faz. Apenas curtindo a limitação profunda e gigantesca da sua beleza esmagadora. Feliz em ser uma formiga que carrega milhões de plantas nas costas só para ver algum esforço meu alimentando você. Vai, faz o bico de burro quando alguém não compra a sua forma. Faz os olhos laterais pra me convidar pra mais uma das suas aparições. Faz o dentinho pra frente pra me pedir mais um pouco. Faz o silêncio pra ganhar de vez. De mim e do mundo. Não existe não morrer um pouco quando você chega. E de vez em quando tudo o que a gente quer é mesmo dar um tempo da vida. - Tati Bernardi

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Lulala

Eu juro que um dia escrevo algum trabalho sobre lider carismático e faço um estudo de caso com o Lula....


Aprovação do presidente Lula bate recorde, diz Datafola
Administração de Lula é ‘ótima’ ou ‘boa’ para 64% dos brasileiros.Pela 1ª vez, ele tem mais de 50% entre ricos e escolarizados.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhou um aliado importante neste ano eleitoral. Agora, ele tem aprovação da maioria absoluta da população brasileira, inclusive dos mais ricos e escolarizados, segundo pesquisa Datafolha, publicada nesta sexta-feira (12) pelo jornal “Folha de S.Paulo”. Lula bateu seu recorde de avaliação positiva em todos os segmentos sociais, econômicos e geográficos do país.

De acordo com a pesquisa, 64% dos brasileiros consideram o governo atual “ótimo” ou “bom”. Em março deste ano, o índice de aprovação apontava 55%.

Na avaliação da publicação, o resultado tem explicação no bom desempenho da economia, na exposição de Lula na campanha eleitoral, e nas recentes reservas de petróleo do pré-sal.
saiba mais

No levantamento, o Datafolha ouviu 2.981 pessoas maiores de 16 anos em 212 municípios do país entre os dias 8 e 11 (quinta-feira) de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou menos. De acordo com o Datafolha, o trabalho mostra que a popularidade de Lula ultrapassa barreiras, e, agora, entra em segmentos em que o presidente não tinha índice de aprovação igual ou superior a 50%. O Datafolha diz também que Lula tem o apoio da maioria no Sudeste (57%), nas regiões metropolitanas, entre os que têm curso superior e entre os que vivem em famílias com renda familiar mensal superior a 10 salários mínimos.

Salto
A partir de março, houve um salto a favor de Lula de 14 pontos percentuais entre os mais ricos. Hoje, 57% dos que vivem em famílias que ganham R$ 4.150,00 ou mais por mês aprovam seu governo, conforme o Datafolha. 57% dos moradores das regiões metropolitanas o aprovam. Em março, 47% dos brasileiros com curso superior consideravam seu governo ótimo/bom. Agora, são 55%.


Outros presidentes
O Datafolha mostrou ainda qual foi a melhor avaliação de cada um dos presidentes desde Fernando Collor de Mello. Foi considerado o percentual de pessoas que considera o governo "ótimo" ou "bom". Veja abaixo:

Fernando Collor de Mello (1990-1992): 36%
Itamar Franco (1992-1994): 41%
Fernando Henrique Cardoso (1995-1998): 47%
Fernando Henrique Cardoso (1999-2002): 31%
Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006): 53%
Luiz Inácio Lula da Silva (2007-2010): 64%

Fonte: G1

domingo, 6 de julho de 2008

Que dia é hoje?

Véspera de amanhã...Eu nunca mais usei aquele vestido, mas para compensar eu escuto a música diáriamente. Ela nem ta no novo dvd do Nando Reis, ela nem está mais no meu celular, mas é a faixa número um do computador.Eu nunca mais o vi, nem o carro, nem mesmo comi a tal comida, mas todas as cores amarelas me deixam envergonhada. O trânsito, o restaurante, nada ajuda. O que era inevitável passou a ser impossível. E eu nem sei o que eu fiz, eu volto naquele lugar uma vez por semana, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, na esperança de ter trocado o dia e ver algo, eu procuro a mesa lá da frente, quando eu gosto mesmo é de sentar ali, no fundinho, exatamente onde tudo começou. Eu nem sei que contas pagar, mas sei o banco o qual deveria ir, passo na frente, seguro a porta e volto. Desisti do celular, não tem resposta, nao tem sinal. Eu mudo os lgares, mas to sempre ali, procurando o que eu não consigo ver, ninguém me deu nenhuma explicação, e eu fujo da realidade, como eu antes eu fugia do que estava ali exatamente na minha frente, branco, transparente feito papel, amarelado pelo tempo. Mas amanhã é dia 05, mas amanhã tem Nando Reis, um motivo alegre p esquecer o que não me fez alegre, e se tudo der certo, amanhã eu não vou lembrar que dia é amanhã, não cmo eu lembrei hoje, e nem vou escutar a música, vou escutar outras, e por sorte, não vou lembrar que a gente tinha combinado de irmos juntos ao show do Nando ... (04.07)

domingo, 15 de junho de 2008

Aniversário da sua ausência
A gente quase completou ano de namoro, quase. Faltou um mês ou um pouquinho mais, não lembro. Mas hoje, sem mais nem menos, completamos um ano de separação. Ano passado essa hora, exatamente a essa hora, eu lembro bem. Eu estava me ocupava em perguntar, de dez em dez segundos, e de dez em dez pessoas, quando é que você iria me ligar e dizer que tinha pensado melhor. Quando? Você nunca ligou, nunquinha. E eu esperei, esperei, esperei tanto tempo, nossa, como eu esperei. Acho que eu nunca esperei tanto nada em toda a minha vida. Outro dia a Myla me perguntou o que você tinha me ensinado. A gente estava conversando sobre os legados que as pessoas deixam em nossas vidas e ela quis saber qual tinha sido o seu. O coiso me ensinou a gostar de MPB e cinema europeu, o outro coiso me ensinou a gostar de sexo e restaurante caro. Teve o coisinho que me ensinou a ser engraçada e jogar frescobol. E você? Que raios me ensinou? Fiquei sem saber na hora, fiquei sem saber o que responder para a Myla. Mas hoje, no nosso aniversário de um ano separados, posso dizer que foi você quem me ensinou a lição mais importante da minha vida: você me ensinou a sofrer. Eu nunca, nunca, tinha sofrido. Nunca. Claro, eu odiava ver meus pais quebrando o pau quando era criança, mas eu lembro que eu, pequenininha, pensava: um dia um príncipe vai me levar para longe dessa casa com gente louca . Eu sofri também na escola, quando para alguém me enxergar eu tinha de promover bizarrices. Mas eu era muito nova para me separar das bizarrices e acabava também chamando a minha atenção: será que eu sou bizarra? Depois, em casa, quando eu dobrava direitinho o uniforme para o dia seguinte e me sentia um papel de parede bege que ninguém entende pra que serve, eu pensava: um dia um príncipe vai me levar pra longe dessa falta de vida, dessa falta de beleza, dessa falta de compreensão, dessa falta de cor, dessa falta de sei lá o que porque eu era novinha demais pra saber o que faltava. Esperar o raio do príncipe sempre disfarçou minha dor, sempre me refugiou dela. Mas quando você, me mandou seguir meu caminho sozinha, fiquei sem saber como fugir da dor. Você era meu príncipe. Depois de tantos amores estranhos, pequenos, errados e tortos, finalmente eu tinha reconhecido no seu olhar centralizado e no seu sorriso espalhado, o meu príncipe. E o meu príncipe estava me dando o fora. Que porra eu ia esperar da vida agora? Quem iria me levar para longe se você não me queria mais por perto? Não teve como. Foi a primeira vez na vida que não consegui me enrolar e acabei deixando a dor vencer. Pela primeira vez a realidade falou mais alto que a fantasia. Pela primeira vez a realidade da sua ausência falou mais alto que a fantasia de anos a sua espera. Sofri pra caralho, como diz por aí quem sofre pra caralho. Mais do que livros cabeças, músicas bacanas, frases inteligentes, lugares descolados ou posições sexuais, você me ensinou o que realmente importa aprender nessa vida: que a vida pode ser uma grande, imensa e gigantesca merda. É, ela pode ser. E que não existe porra de príncipe porra nenhuma. Que nem ninguém e nem nada pode te levar para longe de nada. É isso e pronto. E é assim pra todo mundo. E pronto. Qual o drama? A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos.
A dor do seu pé na bunda trouxe vasos jogados, bitucas eternas de cigarros em longas discussões pesadas, tardes perdidas em odiar o mundo, cabeças viradas, corredores frios, papéis de parede beges e grupinhos festivos e fechados. A nossa dor acabou sendo toda a dor que fazia fila em mim para ser sentida. E já que a porta pra realidade estava aberta, por que não sofrer também pelas criancinhas carentes, os países em guerra, a estupidez humana e a dor das juntas da minha mãe? Por que não sofrer pela condição das favelas, das prisões e da Terra? Por que não temer o aquecimento global, o ácido dos limpadores de vidro na Henrique Schaumann e as frases do Clodovil?
A dor da sua partida trouxe toda a dor do mundo. De uma só vez. Mas agora já passa da meia noite. Não é mais nosso aniversário de fim e, pra te falar a verdade, eu já não sofro mais o nosso fim faz tempo. E pra te falar ainda mais a verdade, eu acho mesmo que você foi o príncipe que eu esperei a vida inteira. Você chegou e me levou embora. Levou embora a menina que tinha medo de sentir a vida e esperava uma salvação para tudo. Quem sobrou é essa desconhecida que se conhece muito bem em suas bizarrices, lê jornais todos os dias, substituiu o bege pela cor do verão, tem uns pais gente boa ainda que malucos, adora os poucos e estranhos amigos, não espera mais pelo cavalo branco mas fica ansiosa pelo início da novela e talvez esteja pronta para amar de verdade. Amar um homem e não um príncipe. Tati Bernardi

E hoje eu só posso agradecer pelo maravilhoso dia!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Alethea BErnardo

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Seu Zé....

" Sabe Zé, no começo doeu não sentir nada. Mas eu consegui. Eu não sinto nada. Nada. Uns vem, uns vão. As garrafas tão lá, ao lado do lixo. As cinzas saem dançando por aí. As minhas vão junto. No dia seguinte eu acordo, tomo um banho, passo protetor solar, sento na minha varanda com o meu jornalzinho e ó: nada. Nadinha. Nem pena do mundo eu consigo mais sentir. Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já era, Zé. É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja. Bate aqui no meu peito, Zé? Sentiu o barulho de granito? Quebrou o braço, Zé? Desculpa. "
TB

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Despedida.

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil. Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus. A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.


Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.Rubem Braga

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Uma índia com um colar...

Engraçado que tudo o que me acontece aqui (bsb), eu me imagino contando isso aos meus amigos. Posso imaginar ligando p Marina e dizendo: "anota que essa vai p livro", escutar uma música e lembrar do Danilo, do Roy, dos Paulinhos, do Rick, ver as pessoas combinando feriados, e lembrar dos carnavais em Vigia, dos Julhos em Salinas, das Semanas Santas. Dos churrascos, da formatura. das noites de muito estudo na escada da Unama, na lanchonete e no Mané. A cada queda, literalmente, a cada vitória. Cada música, comida gostosa, gatinho no carro do lado. Meu Deus o que é viver sem amigos? Eu não vivo... eles estão comigo, nas madrugadas no msn, Guerreiramente! nas horinhas no aeroporto. nos telefonemas exagerados, onde o meu celular grita cazuzaaae mesmo assim aparece a foto de uma menina.
Eu queria falar um pouco dela, pq foi aqui, um dia desses ou há séculos atrás que a gente se conheceu, coisa de paraense, senta junto em uma mesa, e vira melhor amigo.
Égua...
Que saudade!
Eu lembro o tanto que eu chorei quando ela foi, lembro que fui chorando até a porta da casa dela, quando ela me enganou com a hora do vôo. Lembro de cada telefonema de sábado a noite, e a frase... " A Ju volta". Eu sabia, mas sabia também que eu não estaria lá, no dia em que ela voltasse. Depois de mais de 200 dias em outro país, não sei quantos em SP, ela volta p Belém.
E eu posso imaginar a felicidade dela,pq quando eu fui passar só um final de semana depois de apenas 3 meses fora, eu não me contia de tanta felicidade, passei os três dias sem dormir p não perder minuto algum.
Eu posso ainda, ver a cena no aeroporto, a volta p casa, mas não posso me ver lá. Sabe aquelas loucuras, de ir correndo, fazer as malas e chegar lá, junto? Coisa de filme americano. Mas nós somos blasé de mais p isso, o nosso filme é cagada brasileira, ou Europeu cult, o final feliz ainda não é agora.
E eu mt interesseira.. to esperando o teu primeiro salário, quero quilos de pupunha, manga, açaí, tucupi, jambu, sorvete da cairu, vindo na bagagem....
Morro por um abraço teu... meu Deus que saudade doída!
Eu te disse que nao ias desistir, e tu me dissestes o mesmo, e a gente seguiu... Quantas besteiras dissemos p poder rir juntas, e aguentar a solidão da distância. Quantas vezes piramos nas histórias´, só imaginando....
Te amo amiga... e to muito orgulhosa de ti... e sei que vou ficar ainda mais...
Só falta eu fzer o que eu te prometi.... p ter um motivo a mais, ou melhor vários motivos, p ir p Belcity de novo.
Volta logo, p quentinho de lá, p ti vir logo p frio daqui!!!!

"a tarde linda que não quer se por...."

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Não deixe

Não deixe quebrar, não deixe romper, não deixe virar grafite envelhecido e esquecido como qualquer contrato sem alma. Corra e cole os pedaços, corra e segure meus pés no chão porque eu estou quase voando, ou me faça voar novamente com você. Venha logo, traga de volta a minha certeza, não deixe, por favor, não deixe. Traga um agasalho para esquentar a minha falta de amor e ganhe em troca um ingresso para a minha fidelidade. Não espere o horário do trânsito livre, não espere ouvir o que você não quer, não espere a vida dar merda para colocar a culpa na vida. Eu ainda estou aqui por você, limpa, ilesa, sua. Mas cada milímetro do meu corpo me implora por vida, por magia, por encantamento. Por favor, me roube, não deixe, não esqueça do nosso pacto em não ser mais um daqueles casais que não conversam no restaurante e reparam tristes nos outros. Outro dia ouvi a música do Closer e lembrei o tanto que eu te amava, o tanto que ainda te amo, mas havia esquecido. Eu lembrei que enxergar sem pretensões você dormindo, com o seu ombro caído pra frente fazendo bochechas de criança na sua cara feliz, é a visão do paraíso pra mim. Eu preciso de força, eu preciso de ajuda, eu preciso que você me lembre de que eu não preciso de mais nada, que mais nada é tão perfeito e que podemos ser um casal imbatível. Caso tudo isso seja um trabalho inconsciente para me perder, parabéns, você está conseguindo. Mas se ainda existir dentro de você alguma esperança, eu preciso demais que você me abrace e me faça sentir aquilo novamente. É fácil, basta você querer, eu ainda quero tanto. Venha agora, não espere o músculo, a piada, o botão, o calo, a saudade, o arrependimento, o vazio. Eu preciso sentir que você ainda sente, eu preciso que o seu coração dê um choque no meu, eu preciso saber que seu peito ainda aperta um pouco quando eu vou embora e se espalha como borboletas nas veias quando eu chego. Tudo o que eu quero, quando ele me olha sem pressa e sorri nervoso sem saber porque a gente procura se perder, é que você desligue o DVD e me diga que esse filme é batido e não tem final feliz. Eu quero que você grite dentro da minha cabeça que não precisamos disso e que, por alguma razão, quando a gente se afasta a dor é maior do que todo o mundo que nos espera. Eu ainda preciso que você me ache bonita, se surpreenda, me comemore e esqueça um pouco de todo o resto pra se encantar sem medo do tempo. Não me tire a razão, não me tire a honra, não me faça estragar tudo só para sentir o vento na cara de novo e a música alta. Berre e assopre em mim enquanto é tempo. Me coma na cozinha, quebre a mesa, faça um escândalo, qualquer coisa para tirar o cheiro de velório do meu ventre. Eu ainda quero viver para você. Venha agora, ganhe a corrida, passe todo o resto pra trás, é você quem eu continuo eternamente esperando na linha final.

(Tati Bernardi?)

EU JÁ ESTIVE POR LÁ COMO LIDAR COM QUEM JÁ FICOU COM VOCÊ SEM ROUPA NUMA CAMA?

Outro dia fui ao cinema com um grande amigo. Sentamos um ao ladinho do outro, dividimos uma pipoca gigante, confidenciamos comentáriosbobos a respeito do filme. Essas coisas que amigos fazem. Tudo corria bem não fosse um incômodo generalizado que eu sentia na alma: “Peraí, mas eu já dormi com esse cara!”. Não adianta, não consigo ser natural. Homens têm razão quando não gostam de ver suas namoradas muito próximas de “amigos” que já experimentaram do doce. Sempre vai rolar uma piadinha do tipo “ah, mas EU sei que você não é realmente loira” ou ainda “pára de ajeitar essa blusa, EU já vi tudo que tem aí embaixo mesmo”. Quem já “esteve por lá” sempre vai se sentir, ainda que inconscientemente, um eterno possuidor de território, mesmo que o outro case ou mude de sexo.
São como vacas ou bois carimbados. E aí o meu amigo pergunta se eu quero ficar com o saco na mão, referindo-se à pipoca, claro. E eu não consigo disfarçar uma risada eminente. Depois ele pergunta se eu quero uma carona pra voltar pra casa ou prefiro “me virar”. E eu quase me vejo explicando pra ele, de novo, que não curto esse papo de me virar. Mas apenas sorrio e fujo dali o mais rápido possível. Uma vez pelada para uma pessoa, parece que você nunca mais se sentirá de roupa na frente dela. Pior é quando seu ex-parceiro sexual começa a namorar uma amiga. E todo mundo dá uma de civilizado e sai junto, afinal, “faz aí uns bons cinco anos que você saiu com o cara e nem rolou nada muito forte entre vocês”.
E você tenta desfocar o máximo que pode das lembranças, mas é só ele abrir a boca com aquela língua presa e a voz na salada, que você lembra que ele parece o Pato Donald tendo prazer. E não consegue disfarçar um pouco de pena que sente da sua amiga. Ela, mais cedo ou mais tarde, vai se encher daqueles gemidos de gás hélio que ele dá.
UMA MULTIDÃO DE “EX”
E aí você vai a uma festinha dessas que têm mais da metade das pessoas com quem você já conviveu ou trabalhou na vida e descobre, para seu falso desespero, que você aproveitou bem seus últimos dez anos. Muito bem, por sinal. E o incômodo na alma começa de novo. Primeiro você tem que ser simpática e natural com aquele uruguaio que teve de dispensar porque tinha mania de lamber seu braço. Creeeeedo.
Depois encontra um daqueles caras inesquecíveis e é inevitável sorrir que nem uma idiota mesmo que o assunto seja a morte de alguém. O cara te conta que está desempregado e você sorri. Que tem uma doença terminal e você sorri. E vai explicar pro cara que isso é um elogio? Pior é aturar aquele tapinha nas costas e aquele olhar de “ei, gata, lembra de mim?” de algum estagiário precoce que você pegou pra esquecer algum tio moleque. Claro que você lembra dele, teve que atender a mãe dele umas cinco vezes só em uma tarde! E aí você encontra o tio moleque também, e é inevitável ter que cumprimentá-lo“adultamente” mesmo lembrando que vocês adoravam interpretar astros do rock na frente do espelho. Simplesmente não dá para perguntar da CPMF ou das crianças e fingir que nada está acontecendo!
A regra é simples: se você já deu, não dá! Fica sempre aquele fantasma berrando na sua cabeça: “Eu já estive por lá! Eu sei onde ele tem pinta, eu sei onde ele tem cócegas, eu sei onde ele não tem domínio, eu sei que ele tem uma cueca rasgada, eu sei que ele acorda com baba branca ressecada, eu sei que ele imita o Pavarotti, eu sei que ele pede coisas estranhas...” E tudo isso passando pela sua cabeça enquanto você reclama do calor, do governo, da festa, do emprego, das contas para pagar... Quando tudo o que você mais queria era reclamar: meu amigo, por favor, me explica onde eu tava com a cabeça quando estive por aí?

Tati Bernardi

Mais uma eheh

Enquanto espirra o perfume de fragrância duvidosa, Emanuel pensa no tamanho da roubada em que está se metendo. Essa coisa de encontro às escuras, ou “blaindaiti” (como dizia seu amigo Cezar), definitivamente não é a melhor das idéias pra sair daquela melancolia danada. Tudo por causa da Glorinha. Mas agora já foi, são águas passadas, ela que seja feliz com o tal auxiliar administrativo do cartório, que em uma semana acabou com meses de planos. Caguei, diz ele se olhando no espelho. Um Alain Delon, diria sua avó. Ajeita a camisa, dá um último tapa no cabelo emplastado de gel e caminha até a porta. Pensa no momento de encontrar Isabela e suas pernas tremem. O suor começa. Puta merda, toca passar mais perfume!Essa coisa de conhecer gente pela internet é complicada. Você vê a foto ali, não sabe se a pessoa é aquela mesma, se não estão te enganando, se na hora de apalpar não é nada daquilo que você espera encontrar. Mas uma coisa o Cezar tem razão, precisa ir lá e conferir. Ainda mais no caso da Isabela, tão gatinha nas fotos, sorriso meigo, olhos delicados, peitos empinados, cintura fina, linda, linda, linda... mas, e se ela não for nada daquilo? Uma tremenda incerteza bate em Emanuel. Cara, essa menina não pode ser tão bonita como nas fotos. Por que uma gata dessas estaria numa sala de bate-papo? Garotas bonitas como ela não precisam disso, definitivamente.Emanuel olha para suas mãos, elas tremem. Volta para o espelho, se analisa dos pés à cabeça. Acho que não vou. Mais uma olhada. Cara, deve ser alguém zoando com a minha cara, se bobear é o próprio Cezar querendo me pregar uma peça. Nem ferrando que vou cair nessa. Melhor, vou deixar ele lá, plantado, achando que vou cair feito um bestão nessa zoeira dele.Pipoca, pijama, Zorra Total na TV. É isso aí, que sair que nada, parei, não vou cair na do Cezar. Pensa que acreditei nesse papo de Isabela... prefiro ficar aqui pensando na Glorinha. Enquanto isso, na porta do shopping está uma menina muito bonita, sorriso meigo, olhos delicados, peitos empinados, cintura fina, linda, linda, linda... seu nome é Isabela.
Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas e sempre diz que “chance” é sorte em francês.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Da verdade

Às vezes, nosso idealismo nos leva a confundir humildade com submissão, e terminamos humilhados. Às vezes, somos infantis quando precisamos tomar uma decisão madura. E, nos momentos em que o Universo nos pede um pouco de ousadia, terminamos por ser conservadores demais.
Não é fácil se guerreiro o tempo todo. Mais difícil ainda é aceitar o fato de que nem sempre estamos à altura do desafio apresentado. Mas isso faz parte da natureza humana; todo mundo tem o direito e o dever de sentir-se fraco de vez em quando.
Mas é preciso superar os próprios limites. Tudo é arriscado nesta vida. Às vezes pegamos uma tarefa que está além de nossa capacidade, e ela nos derruba no solo - junto com outras pessoas estavam ali só para nos ajudar.
O resultado, porém, é sempre positivo. As cicatrizes da experiência são mais belas que a operação plástica da acomodação.
(Paulo Coelho, blog no G1 21/04/2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

Ele é São `Paulino... ai ai ai

O CORÍNTHIANS É O BRASILDomingo, desembarcando em Salvador, ouvi a seguinte conversa entre um cidadão baiano e um presumível amigo, com quem ele dialogava pelo celular: “Pode botar água de coco no gelo e separar o uiscão que nós vamos ver o gavião cair!”. As incríveis audiências da última rodada do fim de semana revelaram que todo mundo estava ligado na definição do Campeonato. Seria natural imaginar que o sentimento de rivalidade entre torcedores de times diferentes de uma mesma cidade se acirrasse e mostrasse sua facção revanchista quando na eminência de assistir um revés do adversário. Mas nesse fim de semana, algo mais estava em jogo.Sendo o Corínthians um time tão popular, com uma imensa e incrível torcida espalhada pelo Brasil todo, não seria estranho imaginar que a sua situação delicada até o desfecho da rodada mobilizasse uma legião de fãs e adeptos. O Corínthians desperta em sua torcida uma devoção e uma fidelidade ímpar, indiscutível. O inverso disso é a antipatia das outras torcidas, numa mistura de hostilidade com inveja. Grandes paixões não são fáceis de assistir para quem está de fora.A torcida do Corínthians sofreu a dor que a impiedosa sequela da irresponsabilidade administrativa deixou em seu time de coração. E como é costumeiro e crônico no Brasil, quem pagou a conta não foram os articuladores de tal catástrofe. Toda a aventura com a MSI não demorou a cobrar seus direitos atrasados, não só sobre o futebol mas principalmente sobre os fiéis. O título de 2005, levantado pelo elenco vitorioso e estrelado que naquele tempo formava o alvi-negro, teve sua credibilidade manchada pelo escândalo da arbitragem e pelas declarações surpreendentes e reveladores do próprio presidente Dualib. Se não fosse por intermédio e pressão política da CBF, estaria em andamento uma CPI que pretendia esclarecer e desvendar o procedimento obscuro e suspeito com que foram feitas as transações milionárias dos tempos de Kia, e a maneira aparentemente ilícita da entrada de toda essa grana. Para não atrapalhar a indicação do Brasil para sediar a Copa, a CBF preferiu abafar esse caso para não riscar a imagem do futebol brasileiro perante a FIFA!O desfecho de tamanha rapinagem não demorou muito para acontecer. Em menos que dois anos o time do Parque São Jorge perdeu suas “estrelas”, entrou em colapso e botou uma safra de jovens jogadores promissores na fogueira, para serem sacrificados e injustamente resonsabilizados pelo rebaixamento indesejado. Crueldade! A penúria do clube, endividado e abandonado, se refletiu diretamente no campo. A pressão, a suspeita, a cizânia, a traição, a falta de transparência devem, certamente, ter invadido as quatro linhas e criado um clima de instabilidade que comprometeu o desempenho até mesmo de quem sabe jogar bola.O aspecto mais lamentável de toda essa situação é ver que todo o amor que a torcida corintiana despende e entrega para o seu time não encontrou nunca correspondência na cúpula que dirigiu o clube para esse estado deplorável de indigência e o conduziu lenta e melancólicamente para a Segunda Divisão. E o paradoxo é que, nesse momento, a única força que o Corínthians tem para acreditar no acesso está justamente na paixão de sua torcida! O vergonhoso atraso para entrar em campo para o jogo de domingo é revelador da falta de grandeza de seus dirigentes desesperados. O castigo veio no primeiro minuto.Se há alguma coisa que estava anunciada é que uma hora o preço daquela aventura seria cobrado. Mas a fatura sempre bate na porta errada. Jerry, Cícero e demais corintianos não mereciam isso.
Nando Reis. 07/12/2007

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O preferido!

Ela existe...
Encontrei a danada, mas ela fugiu. Pouco depois a encontrei de novo, mas ela disse que estava atrasada e eu entendi com preguiça de filosofar. Mais tarde ela voltou sem falar nada e se enfiou comigo embaixo das cobertas, quentinha. Só foi embora quando o relógio despertou rasgando o conforto, estava frio. Durante o dia ela voltou em situações bobas como o sorriso do menino mais lindo do mundo, a bolacha de chocolate que eu lembrei que tinha na gaveta e um título engraçadinho que eu fiz e foi aprovado pelo cliente. Ela ia e voltava, ia e voltava: como a vida. Linear são os batimentos cardíacos da morte. A noite ela apareceu na porta do meu banheiro, fez tanta força que entrou mesmo com a porta fechada. Focinhou a porta do box e me mostrou a bolinha de brinquedo me chamando para brincar, ao mesmo tempo entrou pela janela revestida de cheiro de hambúrguer. Veio em dose dupla. As vezes ela desaparece durante tanto tempo que me falta o ar. Dá uma saudade louca, ela deixa um vazio depressivo, um buraco. Ela me deixa mais uma e eu odeio ser mais uma. Não posso negar a dependência que eu tenho dela. Mas eu aprendi, finalmente, eu aprendi que ela não aparece apenas numa grande história de amor, numa viagem com tudo pago para Paris ou numa bufunfa boa lá na minha conta bancária carente. Ela também dá as caras pelo lado simples da vida, ontem apareceu numa tomada. Eu estava numa sala de espera lotada, esperando para abrir as pernas naquela cama da tortura e ouvir da minha ginecologista que sim, vai doer, mas é para o meu bem. E ela apareceu. Eu precisava recarregar meu celular para saber o que o esquisito tinha deixado na minha caixa postal e uma tomada apareceu do meu lado, foi só afastar um pouco as revistas Caras e outras do mesmo gênero (enquanto você espera para saber como vai sua vagina você fica sabendo como vai a vagina das outras). E lá estava o recado dele, esquisito como sempre, mas com aquela voz lacônica e charmosa. A felicidade entrou com o pé na porta e sentou ao meu lado. Eu não estava mais sozinha esperando o espéculo. O trânsito todo parado e ela acena no carro ao lado, depois morre de vergonha e toma bronca do pai para sentar direito na cadeirinha. O dia meio cinzento, vai-não-vai e de repente ela surge amarela e esquenta a vida. Ela mora numa gaveta cheia de bobeirinhas lá em casa, que tem nariz de palhaço de festa louca, cartinha de amor antiga, fotos da minha bochecha quando eu tinha cinco anos e lembranças de carinho em flores secas. Ela toma banho comigo quando a água leva embora coisa ruim e renova. Ela é fantasma quando eu lembro do meu avô dizendo que eu era a mulher mais linda do mundo. A mulher mais linda do mundo pequeno do meu avô. A felicidade mora num mundo pequeno seu e não naquele grande que faz você se perder demais. A felicidade é simples, e quando você descobre isso ela deixa de ser uma espera e passa a ser um minuto, um segundo. E é de minutos e segundos que se faz a vida. E aí você perde menos tempo esperando e mais tempo vivendo. Entre o piegas e o chavão, é assim que ando por aí vivendo a vida intensamente sem esperar momentos intensos. Você já tentou? Já tentou não imaginar a sua felicidade na outra festa que você estaria se não estivesse nessa e encontrar a sua felicidade onde você está? Tente, pode ser numa música boba, pode ser num amigo que você não via há muito tempo. Pode ser morrendo de rir de uma noite mico, por que não? Eu sempre esperei viver uma história de cinema, ouvir cantadas de filme francês, ganhar salário de estrela, ter amigos de sitcom, corpo de capa de revista e enterro de celebridade. Ai eu lembrei que os filmes de que eu mais gosto são aqueles despretenciosos que contam a história de uma pessoa idiota como eu.
TB

P não sentir dor!

Para não sofrer eu vou me drogar de outros, eu vou me entupir de elogios, eu vou cheirar outras intenções. Vou encher minha cara de máscaras para não ser meu lado romântico que tanto precisa de um espaço para existir ridiculamente. Não vou permitir ser ridícula, nem uma lágrima sequer, nem um segundo de olhar perdido no horizonte, nem uma nota triste no meu ouvido. Eu sei o quanto vai ser cansativo correr da dor, o quanto vai ser falso ignorar ela sentada no meu peito. Mas vou correr até minha última esquina. Vou burlar cada desesperada súplica do meu coração para que eu pare e sofra um pouquinho, um pouquinho que seja para passar. Suor frio da corrida, sempre com sorriso duro no rosto e o medo de não ser nada daquilo que você me fez sentir que eu era. Muita maquiagem para esconder os buracos de solidão. Muita roupa bonita para esconder a falta de leveza e de certeza do meu caminho. E por que vendo tanto meu corpo e tão pouco minha alma? Porque quero ver você comprando o que realmente quer e não enganando querer para levar a promoção. Estou triste do tamanho do buraco sem vida que você deixou em mim, uma concavidade sonhadora que ainda pulsa um desejo que ao mesmo tempo enoja. Mas para não sentir dor eu vou jurar ao último ouvido do meu universo o quanto você é descartável. O quanto sua molecagem não permitiu nenhuma admiração de minha parte. Para não sofrer não vou permitir minha cabeça no travesseiro antes do cansaço profundo e sem cérebro. Não vou permitir admirar coisas da natureza porque talvez eu me lembre de você ao ver algo bonito. Não vou permitir silêncios porque é aí que o meu fundo transborda e a tristeza pode me tomar sem saída. Eu vou continuar deixando a minha cabeça me martelar porque toda essa confusão é ainda menos assustadora do que a calmaria da verdade. A verdade é a frieza do mundo, é a podridão dos desejos, são as mentiras que a gente inventa para os outros e acaba acreditando. A verdade é que mais cedo ou mais tarde você será traído, porque todo mundo tem medo de viver a entrega. A verdade é que ninguém se entrega porque ninguém se tem. A verdade é que não estamos aqui, estamos em algum lugar seguro vivendo nossas vidas medíocres. A verdade é que todo esse perfume é vergonha de nossa essência, todas essas marcas são vergonha do nosso corpo, todo esse charme despretensioso é vergonha de nossas fraquezas. A verdade é que nada é inteiro porque até o inteiro para ser todo precisa ter seu lado vazio. A verdade é que não dá para fugir da dor, e eu continuo correndo, correndo, correndo e não saindo do mesmo lugar.
Tati Bernardi

Trabalho Escravo, Trabalho Forçado, Escravidão Moderna

Cerca de 12,5 milhões de pessoas, são vítimas de trabalho forçado, atualmente, em todo o mundo. Pesquisa realizada pelo Programa de Ação Especial de Combate ao Trabalho Escravo, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que o trabalho forçado é um problema mundial. Afeta tanto países subdesenvolvidos quanto desenvolvidos. Nesta conjuntura, o continente asiático lidera o ranking com quase 9,5 milhões de pessoas submetidas a essa situação, seguido por América Latina e Caribe, com 1,3 milhões. Oriente Médio e Norte da África integra a lista, com 260 mil, e os países industrializados e em transição somam pouco mais de 0,5 milhão.
Dentre esses casos, quase 10 milhões de pessoas são exploradas por agentes privados. Mais de 2,5 milhões, a partir do tráfico de pessoas. O grupo ainda se subdivide por tipo de trabalho forçado, sendo a maior parte vítima de exploração econômica, seguido por explorações impostas pelo estado ou militares e pela exploração sexual comercial. Nesta última fatia, a quantidade de mulheres chega a 98%, segundo o Programa da OIT.
Usualmente, usa-se o termo “trabalho escravo” para definir a prática de trabalho forçado, em condições precárias e insalubres. Mas existem diferentes formas de se referir a essa prática. Em países como o Paquistão, por exemplo, há nas leis definições complexas de “servidão por dívida”, as quais se encaixam nas características de trabalho forçado. Na primeira Convenção sobre Trabalho Forçado, de 1930, a OIT definiu trabalho forçado, para fins de direito internacional, como “todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob ameaça de sanção e para o qual ela não tenha se oferecido espontaneamente”.
Ainda segundo a Organização, o trabalho forçado tem elementos básicos que o caracterizam: é imposto sob ameaça ou punição e executado involuntariamente. As formas de ameaças e punições podem existir de diversas formas. A mais agressiva, a violência física com ou sem confinamento, acaba por se repetir em muitos casos, e também por vezes é estendida a familiares do trabalhador. A ameaça psicológica, não menos agressiva, também é freqüente. Depoimentos de imigrantes mostram que as ameaças tratam sobre possíveis denúncias a autoridades de imigração, sobre a situação ilegal do trabalhador no no país. Por vezes, empregadores retêm os documentos do trabalhador, impossibilitando-o de fugir.

Luiz Machado, assistente do Projeto do Combate ao Trabalho Escravo da OIT, afirma que grande parte dos imigrantes não tem o exato conhecimento da situação. “Em geral, são iludidos e enganados. Chegam ao país com outra idéia de trabalho. Como alguns vêm de regiões pobres, passam a acreditar que em determinado país podem conseguir juntar dinheiro para envia as famílias ou mesmo levá-los para morar em outro país. Pouquíssimos conseguem realizar o plano”, relata. A situação que define trabalho forçado é dada não pelo tipo de atividade desenvolvida, e sim pela relação de uma pessoa com o trabalhador. Nem mesmo em casos onde a tarefa executada é ilegal, como a prostituição, em algumas localidades: se uma mulher é obrigada a se prostituir, está em situação de trabalho forçado.

AMÉRICA LATINA
As profundas desigualdades sociais dentro da América Latina acabam por provocar uma intensa movimentação de indivíduos de países mais pobres e menos desenvolvidos, como Bolívia, Paraguai e Peru, para países onde possam encontrar, principalmente, oportunidades de empregos. A facilidade de movimentação dentro do próprio continente também é característica desse fluxo de pessoas. As principais rotas de fuga são Brasil e Argentina. Na cidade argentina de Córdoba, por exemplo, há um grande número de residentes bolivianos, entre os quais são freqüentes as denúncia de abusos dos direitos trabalhistas contra exploradores tanto bolivianos como argentinos.
Problemas com a prostituição infantil também estão presentes em pequenas cidades no interior da província. Os mecanismos para captura de crianças e adolescentes são os mesmos em diferentes países, inclusive no Norte e Nordeste do Brasil. Casais vão a uma comunidade pobre com a desculpa de fazer turismo. Levam alimentos e ao ver uma família com vários filhos, propõem levar um deles para lhe dar melhores condições de vida e possibilidade de estudo na cidade grande. No entanto, uma vez que se vão, não voltam mais. As meninas são levadas para exercer a prostituição, trabalho infantil doméstico ou são vendidas para trabalho escravo.
Estranho imaginar pais vendendo filhos. Mas não se observarmos localidades com Santiago Del Estero, onde o ambiente hostil faz com que crianças morram por desnutrição, contaminação das águas e por não ter acesso a um sistema de saúde preventivo e efetivo. Some-se a isso a falta de instrução dos pais e uma realidade onde ainda é encontrada uma forma de trabalho antiga, em que o pagamento de todo um dia de trabalho é igual a um pacote de açúcar, erva e arroz, que não chega a sustentar toda a família. Em alguns casos, existe a produção de artesanato de grande qualidade, mas os artesãos recebem pouco por peça, que é revendida mais tarde por preços muito maiores.
Realidades como essa acabam por levar homens e mulheres a acreditar em promessas de um melhor trabalho, com maior remuneração, em grandes cidades ou em outros países. Casos dos bolivianos que viajam à Argentina, para trabalhar nos campos de cultivos de verdura, e no Brasil, para se empregarem em oficinas têxteis de cidades como São Paulo. No trato, o empregado entrega seus documentos ao empregador, por “questões burocráticas”, e recebe dinheiro para custos da viagem. Os pacotes também incluem moradia, alimentação e, algumas vezes, vestimentas. Mas, quando chegam ao destino, descobrem que tudo o que foi recebido é cobrado, e o valor do salário não custeia praticamente nada.
Ficam em péssimas moradias, as peças produzidas valem centavos, tudo o que é recebido ou consumido é cobrado. Aprisionados, chegam a trabalhar de 16 a 20 horas por dia. Geralmente em porões mal ventilados, sem acesso ao mundo exterior – por causa da situação de irregularidade. E é comum que, além de sofrerem processo de confinação familiar, sejam separados dos conterrâneos pelo empregador, para evitar assim qualquer tipo de contato.
A assistente social da organização não governamental Pastoral do Migrante, Ana Shirley Barradas, afirma que a maioria dos imigrantes vem de províncias muito pobres, alguns de etnias marginalizadas, e não tem o exato conhecimento da situação. “Mesmo os que têm um pouco de noção do que possa acontecer preferem arriscar, por que não enxergam outra oportunidade em seu local de origem”, conta. Segundo Shirley, todos os dias a Pastoral recebe denúncias de trabalho irregular e forçado de imigrantes. A Pastoral do Migrante estima que existam hoje, na capital paulista, de 600 mil a 700 mil latino-americanos, dos quais 40% em situação irregular. Os bolivianos, segundo relatos, apresentam quadros de anemia e desnutrição. Por causa da falta de ventilação, contraem doenças respiratórias contagiosas, como a tuberculose. Mulheres têm seus filhos dentro do próprio alojamento. Médicos só são procurados em casos extremos.

POBREZA E ÊXODO
A Bolívia hoje tem uma situação sócio-econômica complicada, com os piores indicadores sociais da América do Sul. No total são 8 milhões de habitantes, vivendo em situações precárias. De acordo com o ranking mundial de desenvolvimento humano, medido anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Bolívia está na 114ª posição de um total de 177 países – números de 2004. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) boliviano é de 0,681. Para se ter uma exata noção, o Brasil ocupa a 72ª posição no ranking da PNUD e tem um IDH de 0,775. No Paraguai, o sistema não chega a ser diferente. O alto nível de corrupção em grande parte das instituições oficiais e a falta de trabalho faz com que seja alto o número de mulheres e meninas que se prostituem. E chegam a isto muitas vezes por meio da força.
O problema envolvendo o trabalho forçado de latino-americanos é bem conhecido entre as autoridades brasileiras. Para o combate dessa prática foi criada uma força-tarefa formada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), Delegacia Regional do Trabalho (DRT), Polícia Federal (PF) e Ministério da Justiça. Como infelizmente, as operações de fiscalização não asseguram qualquer tipo de direito trabalhista ao imigrante, pois ele está em uma situação irregular no Brasil, e também podem levar à deportação do trabalhador.
O juiz do Trabalho Titular de Vara na 15ª Região, Firmino Alves Lima, mestre e doutorando em Direito do Trabalho pela Universidade de São Paulo e integrante da Comissão de Direitos Humanos da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, trata sobre o tema no artigo “A exploração de trabalhadores bolivianos em São Paulo – Uma triste realidade”. Ele sugere mudanças no Estatuto do Estrangeiro, que veda o exercício de qualquer atividade remunerada mesmo àqueles que tenham visto de turista, temporário ou de trânsito – exceção é feita quando o estrangeiro tem uma comprovação da entidade que o contratou.
Mas o problema não é exclusivo dos países da América do Sul, ele se estende até o México, onde organizações humanitárias registram casos de milhares de camponeses empregados em condições análogas à de escravidão na construção de luxuosos hotéis nos redutos de veraneio de Cancun, Riviera Maia e Quintana Roo. Os trabalhadores estariam vindos de zonas rurais e trabalhando de forma irregular, sem seguro médico, jornadas acima das 8 horas diárias e salários baixíssimos. Na maioria dos casos, os trabalhadores ficam por três ou quatro meses e acabam voltando para casa com problemas ligados ao alcoolismo ou enfermidades decorrentes da estada em galpões insalubres ou em parques públicos, do consumo de alimentos de baixa qualidade e da exposição à transmissão de doenças como a Aids, pelo contato com prostitutas.

IMIGRAÇÃO CIRCULAR
Nos últimos anos, os países da União Européia têm tomado medidas para facilitar a imigração legal ligada à demanda de mão-de-obra dos mercados de trabalho nacionais, como forma de evitar o trabalho em condições precárias ou irregulares. Em um encontro em Stratford-upon-Avon na Inglaterra, ministros do Interior do Reino Unido, Itália, Espanha, Polônia, Alemanha e França concordarem com a possibilidade de receber cidadãos provenientes de nações pobres, permitindo-os ficar de 3 a 5 anos na União Euroéia, desde que tenham contratos temporários. A proposta, também chamada de imigração circular, é que esses imigrantes possam juntar dinheiro, enviar a suas famílias e voltar no tempo correto para suas localidades de origem, mais qualificados profissionalmente. Seria uma forma de combinar políticas de desenvolvimento social com as regras de imigração.
Alemanha e França defendem que sejam discutidas cotas nacionais para países que não pertencem à União Européia, facilitando a deportação de cidadãos que não apóiam tais medidas. O presidente francês Nicolas Sarcozy já declarou à imprensa que a questão da imigração é mais dramática do que política. “Há vozes, tanto da direita como da esquerda, unidas em ver a imigração como um tópico político, mas como um drama humano”, disse.
Calcula-se que no ano de 2004, cerca de 1,4 milhões de imigrantes ilegais tenham entrada na União Européia. Um número que, apesar de todas as formas de controle e repressão, não pára de aumentar. Grande parte destes imigrantes é procedente do norte da África, Turquia, Índia, Paquistão, África Subsahariana e dos Balcans. O questionamento mais crucial é que na Europa, apesar de ser criada uma cultura de racismo e xenofobia, a população envelhece e quase não se renova, e a escassez de mão-de-obra cresce. Estudos apontam que até o ano de 2050 seja necessária a chegada de 44 milhões de imigrantes para ocupar postos de trabalho.
Segundo Denúncias do Observatório Europeu do Racismo e da Xenofobia, o aumento dos casos de violência racial e da discriminação decorre do medo do desemprego, insegurança em relação ao futuro sobre as condições sociais e as políticas dos governos. Os movimentos contra imigrantes apontam que os europeus preocupam-se ainda com uma possível perda da identidade nacional, por um possível predomínio dos estrangeiros. Há também o medo de máfias que se proliferam e se dedicam ao tráfico de mão-de-obra clandestina, prostituição, comércio de drogas, levando ao aumento da criminalidade.
Na União Européia, as leis sobre imigração e asilo político variam muito de país para país, embora haja uma busca por unificação das mesmas. Estima-se que hoje, em toda Europa, vivam cerca de 3 milhões de pessoas nessa situação. E o número de pessoas que pedem refúgio não pára de crescer. Em 2001, o total de pedidos registrados foi de quase 400 mil.


U.E Pedidos de asilo por país 2001
Alemanha
88.363
Grã-Bretanha
70.135
França
47.363
Holanda
32.579
Áustria
30.135
Bélgica
24.549
Suécia
23.513
Dinamarca
12.403
Irlanda
10.324
Itália
09.755
Espanha
09.219
Grécia
05.499
Finlândia
01.651
Luxemburgo
689
Portugal
192
Fonte: ACNUR



MAINMAR E PAQUISTÃO
O trabalho forçado imposto diretamente pelo Estado também preocupa o cenário mundial. Apesar do número de casos ser pequeno, o desrespeito dos direitos fundamentais é extremo. É o que acontece em Mianmar, sul da Ásia – que até 1989 era chamada República Social da Birmânia. As Forças Armadas que governam o local desde o golpe de Estado de 1962 demonstraram escasso respeito pelas liberdades políticas e civis e pelos direitos humanos. A dissensão e os proclamas de liberdade costumam se chocar com a força bruta, na forma de cassetetes e balas.
A imposição de trabalho forçado por militares em Mianmar tem chamado atenção da comunidade internacional pela forma como é realizado. Denúncias feitas a funcionários da OIT mostram casos chocantes, como o de uma criança levada a força para um centro de recrutamento do exército e obrigada a se alistar sob ameaça de prisão. Escapou e, recapturada, foi condenada a seis meses de prisão, os quais permaneceu no serviço militar.
Outras denúncias tratam de grupos de famílias que eram obrigadas a trabalhar, recebendo cotas, também sob pena de prisão. Aldeias eram obrigadas a dar contribuições em dinheiro, enquanto veículos e seus condutores eram requisitados para transporte de materiais, cultivo de terras – que pertenciam a agricultores e foram confiscadas para a instalação desse comando militar. Relatos de aldeões do município de Hinthada apontam que eles foram requisitados para montar sentinela por 24 horas em regime de turnos. Já 45 habitantes de Rakhine tiveram de trabalhar no fornecimento de brita ou em projetos de construção de pontes. Durante vários dias foi requisitada a mão-de-obra de 40 aldeias para a manutenção anual de rodovias.
A ameaça policial de prisão não é a única forma de represália no país. No ano de 2004, um estudante foi processado pelas autoridades locais por ter se negado a trabalhar. Outro estudante perdeu a vaga na faculdade pela mesma acusação. A situação no país foi seguida de perto pela comunidade internacional, com a OIT assumindo a liderança de chamar a atenção para continuadas práticas de trabalho forçado.
O trabalho forçado imposto pelo Estado se estende também a alguns países da Ásia Central, que ainda trazem consigo práticas realizadas na era soviética, como Tajiquistão e no Uzbequistão, onde trabalho forçado na indústria algodoeira tem afetado principalmente mulheres, crianças e jovens estudantes. Nas estações de plantio e de colheita, eles são transportados para os campos de algodão e forçados a trabalhar por pouca ou nenhuma remuneração. O desrespeito chega ao ponto de mulheres serem enviadas pelas famílias de acordo com uma cota pré-estabelecida, enquanto as crianças participam como parte do currículo escolar.
Em países africanos, os relatórios apontam seqüestros e incorporação forçada a grupos militares governamentais ou apoiados por governos, assim como de forças rebeldes, juntamente com o uso de trabalho forçado adulto e infantil, em contexto de conflito militar. No Paquistão, sudoeste da Ásia, a situação de trabalho forçado é bem mais complicada, acredita-se que cerca de pelo menos um milhão de pessoas encontram-se nessa situação, por causa da prática conhecida como Peshgi. O Peshgi é uma antiga prática de endividamento, em que pessoas pobres pegavam dinheiro e mantimentos emprestados, em propriedades rurais, e deixava como garantia o seu próprio trabalho e o de sua família. Nos casos onde as dívidas seriam muito altas, foram passadas de geração a geração. Aumentadas por mecanismos que as tornam impagáveis, essas dívidas deixam os trabalhadores e seus filhos ligados à terra e a seus senhores por anos.
A realidade do Paquistão se assemelha à servidão na Europa, no período do feudalismo, quando os senhores de terra recebiam parte da produção de seus servos, os trabalhadores são considerados como patrimônio, na relação capitalista em busca do lucro. O país tem um contingente populacional de 163 milhões de habitantes –o Brasil tem 180 milhões, com uma área dez vezes maior. Cerca de 35% dos habitantes estão abaixo da linha de pobreza. Aproximadamente a metade da população está na agricultura e 44% das terras estão nas mãos de apenas 5 mil famílias. O problema se concentra mais ao centro/sul do país, principalmente nas províncias de Punjab e Sindh.
No ano de 1992 o Peshgi foi declarado ilegal, mas a sua erradicação está longe de acontecer, devido a interesses da manutenção da situação pelos grandes donos de terra e a falta de garantia do governo local. O trabalho escravo no Paquistão não se concentra apenas nas propriedades rurais, mas acaba se estendendo também ao setor de minerações, produção de tijolos e de carpetes.


O que diz a legislação

A Legislação que proíbe de forma universal trabalhos forçados, em condições irregulares, punições e toda forma degradante de trabalho, não é uma criação do século 21. O fim da escravidão e de práticas análogas à escravidão é um princípio reconhecido por toda a comunidade internacional. Há diversos acordos e convenções internacionais que tratam da escravidão contemporânea. A OIT aborda o tema nas convenções número 29, de 1930, e 105, de 1957. O assunto também é abordado na Carta de Direitos Humanos.
A Conferência Geral da OIT, reunida em Genebra em 1957, acordou com os países membros a abolição total do trabalho forçado e da servidão por dívida. A partir do documento, ficam vedados nos países membros da OIT sistemas de pagamento que privem o trabalhador da real possibilidade de deixar o emprego; medidas coercitivas, punições por ter ou expressar opiniões políticas ou pontos de vista ideologicamente opostos ao sistema político, social e econômico vigente; por participação em greves, medida de discriminações racial, social, nacional ou religiosa. Os países se comprometeram em adotar medidas para assegurar a completa abolição do trabalho forçado e do tráfico de pessoas para estes fins.
Artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelecem que todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. Condenam qualquer distinção ou ato que contrariem o direito a igual remuneração por igual trabalho, repouso e lazer – inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas. Ainda segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante, nem a interferências na sua vida privada e familiar. O documento declara que ninguém será mantido em escravidão ou servidão. A escravidão e o tráfico de escravos estão proibidos em todas as suas formas.
No Brasil, o artigo 149 do Código Penal, que trata do crime de submeter alguém as condições análogas a de escravo, existe desde o início do século passado. E a Constituição relaciona todos os direitos básicos do trabalhador no seu Capítulo II, “Dos Direitos Sociais”.



Anexos:
Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948)
Artigo 2ºI) Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.II) Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.
Artigo 3ºTodo o homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4º Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos estão proibidos em todas as suas formas.
Artigo 5º Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo 12º Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques a sua honra e reputação. Todo o homem tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Artigo 23ºI) Todo o homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.II) Todo o homem, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.III) Todo o homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como a sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.IV) Todo o homem tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses.
Artigo 24ºTodo o homem tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.
Convenção 105- Relativa a abolição do Trabalho Forçado (1957)
Artigo 1º
Todo País-membro da Organização Internacional do Trabalho que ratificar esta Convenção compromete-se a abolir toda forma de trabalho forçado ou obrigatório e dele não fazer uso:
a) como medida de coerção ou de educação política ou como punição por ter ou expressar opiniões políticas ou pontos de vista ideologicamente opostos ao sistema político, social e econômico vigente;
b) como método de mobilização e de utilização da mão-de-obra para fins de desenvolvimento econômico;
c) como meio de disciplinar a mão-de-obra;
d) como punição por participação em greves;
e) como medida de discriminação racial, social, nacional ou religiosa.

Constituição Federal Brasileira (1988)
Art. 227º - É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Código Penal Brasileiro (1940)
Redução a condição análoga à de escravo
Art. 149º – Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto:
Pena – reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à
violência.
§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem:
I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho;
II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.
§ 2º - A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido:
I – contra criança ou adolescente;
II – por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.

Estatuto da Criança e do Adolescente (1990)
Art. 4º - É dever da família, da comunidade, da sociedade
em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.Art. 60º. É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz.
Personagens:

*Juan Martins- 17 anos; Dolores Martins 33 anos, Juana Martins 34 anos.

Os irmãos Juan Martins, 17 anos; Dolores Martins, 33 anos, e Juana Martins, 34 anos, vieram da Bolívia atraídos por uma proposta de emprego em São Paulo. Trabalhariam e morariam na casa de um também boliviano, chamado Gonzáles, e receberiam R$ 800 como operários em um atelier de roupas. Chegaram depois de longa viagem em um ônibus cheio de outros imigrantes bolivianos. “O primeiro impacto foi a casa: as condições assustariam qualquer um”, conta a assistente social Ana Shirley Barradas, que mais tarde atenderia os três irmãois na Pastoral do Migrante.
Mas mantiveram-se firmes, resignados pela impossibilidade de voltar e amparados na ilusão de conseguir juntar dinheiro, enviar para a família e, quem sabe, até construir algo para os três em São Paulo. Contudo, não sabiam que teriam que pagar pela passagem, abrigo, alimentação, e que receberiam na verdade de R$ 0,20 a R$ 0,80 por peça confeccionada. Nessas condições, juntar algum dinheiro e quitar as dívidas seria impossível.
Na casa, moravam e trabalhavam dez pessoas, entre elas crianças e adolescentes, em condições precárias e insalubres. Era total a falta de higiene, a alimentação era a mais simples e as pessoas dormiam em qualquer lugar. A jornada de trabalho diária começava às 7h e só terminava às 22h, com uma hora de almoço e 15 minutos de intervalo pela parte da tarde. Inclusive nos finais de semana, já que o dono do atelier os amedrontava, dizendo que os imigrantes poderiam ser presos a qualquer momento por estarem em situação irregular no Brasil
Durante os oito meses que os três irmãos ficaram na casa, Juan saiu algumas vezes para jogar bola. Conseguiu fazer contato com outros bolivianos e fugiu levando consigo as duas irmãs. Acaram indo para outra casa onde trabalhavam em serviço semelhante ao anterior. Quando os irmãos achavam que o pesadelo tinha terminado, Juan foi seqüestrado, por Gonzáles e severamente espancado. Em troca do menino, Gonzáles exigiu de Dolores e Juana a quantia de R$ 5 mil. Sem escolha, as irmãs procuraram ajuda na Polícia Federal que conseguiu resgatar o adolescente.
Atualmente, Gonzáles continua preso. Juan, Dolores e Juana conseguiram se empregar e legalizar a situação no país, por intermédio da Polícia Federal, Pastoral do Migrante e Ministério do Trabalho.

*Os nomes reais dos personagens foram trocados por nomes fictícios por questão de preservar os personagens.


Júlio Martins 54 anos.

O trabalho escravo ou irregular faz vítimas também entre brasileiros vivendo em seu próprio país. É o caso de Júlio Martins, 54 anos, trabalhador rural, quase sem estudo. Ele conta que foi convidado a trabalhar em uma fazenda no sul do Pará, por um empreiteiro (como os agenciadores são conhecidos na região). Logo que o agricultor chegou ao local recebeu material para trabalhar, alimentos e fumo. Foi a primeira de muitas dívidas que iria contrair. Segundo Júlio, tudo o que recebia era contabilizado como saldo negativo.
Durante três meses, ele enfrentou uma jornada de mais de 10 horas diárias no roçado da fazenda, que ficava a 20 km da estrada que cortava o município de Marabá. Na propriedade, os filhos dos trabalhadores ajudavam os pais. Júlio conta que era comum ver crianças e adolescentes carregando galões de 5 litros com água.
Júlio Martins e outros trabalhadores rurais foram retirados da fazenda após uma investigação conjunta da Polícia Federal e do Ministério do Trabalho, que promovem forças-tarefas para libertar pessoas que vivam e trabalhem em condições impróprias na região. Ele conseguiu receber os pagamentos atrasados e foi encaminhado para uma instituição não governamental que tem como objetivo recolocar ex-escravos no mercado de trabalho formal.
Júlio hoje exerce funções de zelador e jardineiro em uma siderúrgica no Pará. "Agora o trabalho é bem melhor, com hora para começar e terminar, sem todo aquele esforço. Por mim, ficava aqui até o final da minha vida”, afirma.




Quadro 1.
Identificação de Trabalho Forçado na Prática
Falta de consentimento (natureza involuntária do trabalho) (“itinerário” do trabalho forçado)
􀀢 Escravidão por nascimento ou por descendência de escravo / servidão por dívida
􀀢 Rapto ou seqüestro
􀀢 Venda de pessoa a outra
􀀢 Confinamento no local de trabalho – em prisão ou em cárcere privado
􀀢 Coação psicológica, isto é, ordem para trabalhar, apoiada em ameaça real de punição por desobediência
􀀢 Dívida induzida (por falsificação de contas, preços inflacionados, redução do valor de bens ou serviços produzidos, taxas de juros exorbitantes, etc.)
􀀢 Engano ou falsas promessas sobre tipose condições de trabalho
􀀢 Retenção ou não pagamento de salários
􀀢 Retenção de documentos de identidade ou de pertences pessoais de valor Ameaça de punição (meios de manter alguém em regime de trabalho forçado)
􀀢 Violência física contra o trabalhador ou sua família ou pessoas próximas
􀀢 Violência sexual
􀀢 (Ameaça de) represálias sobrenaturais
􀀢 Prisão ou confinamento
􀀢 Punições financeiras
􀀢 Denúncia a autoridades (polícia, autoridades de imigração, etc.) e deportação
􀀢 Demissão do emprego atual
􀀢 Exclusão de empregos futuros
􀀢 Exclusão da comunidade e da vida social
􀀢 Supressão de direitos ou privilégios
􀀢 Privação de alimento, habitação ou de outras necessidades
􀀢 Mudança para condições de trabalho ainda piores
􀀢 Perda de status social

Fonte: Relatório Global do Seguimento da Declaração da OIT sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho.

Quadro 2.

Distribuição regional de trabalho forçado


Número de pessoas em situação de trabalho forçado
Ásia e Pacífico
9.490.000
América Latina e Caribe
1.320.000
África Subsaariana
660.000
Países Industrializados
360.000
Oriente Médio e Norte da África
260.000
Países em transição
210.000
Mundo
12.300.000

Fonte: Programa de Ação Especial da OIT de Combate ao Trabalho Forçado (SAP-FL)


Texto: Alethea Bernardo

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Eu nem te amo.

O problema não deve ser eu. E eu nem te amo mesmo. Sua voz é chata e seu papo então, insuportável. Respiro aliviada e sugo o máximo de você, pra ter a certeza absoluta de que não é você. Não sonhei com você. Não quero passar minha vida ao lado da pessoa mais estranha do mundo. Imagina só ficar grávida de um homem que tem pavor de mulher com enjôo? Imagina só ficar velha ao lado de um homem que tem pavor da vida óbvia, cotidiana e imperfeita? Eu viveria infeliz.Não é você. E lá vem você me perguntar porque é que estão todos casando, e falar pela trigésima vez que você vai acabar sozinho e não deve nada a ninguém. E lá vem você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio. E me falar para eu não sofrer e para eu ir embora e para eu não esperar nada e para eu não desistir de você. E eu me digo que não é você. Porque, se fosse, meu sono seria paz e não vontade de morrer.Me despeço, já sem aquela dor aterrorizante, das partes de você que mais amo. Ainda que eu nem te ame mesmo. E me despeço das partes da sua casa que eu mais amo. Ainda que nada disso seja amor. E entro no carro já sem chorar. Os últimos três anos chorando por você serviram ao menos para me secar por dentro.Preciso me aliviar. Mas dou até risada porque acabaram os caminhos. O mundo não suporta mais esse meu não amor por você. Meus amigos espalmam a mão na minha cara e já vão logo adiantando que se eu pronunciar seu nome, eles vão embora sem nem olhar para trás. Remédios só me deixam com um bocejo químico e a boca do estômago triste, mas não tiram você do meu coração. E escrever, que sempre foi a única coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo. Escrever sobre você de novo? De novo? Tenho até vergonha. Nem eu suporto mais gostar de você. E olha que nem gosto.É como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia , os carros correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta todo dia de manhã na minha janela, a torta de palmito na geladeira, a minha vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido, um cara qualquer que eu dormi (e todos eles parecem qualquer quando não são você). É como se o mundo inteiro me dissesse: “ninguém agüenta mais esse assunto! Chega!”E no meio da noite, quando eu decido que estou ótima afinal de contas tenho uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes a acabar.Lembro de você me dando mostarda de café da manhã na primeira vez que dormi na sua casa, de você com os olhos disfarçando uma lágrima porque a minha cachorra buscou a bolinha e era só uma desculpa para eu fechar a porta antes dela voltar. Lembro de você querendo fugir de um museu na Itália porque tantos dias longe de casa te deram uma espécie de bobeira e você achava que estava sufocando. Lembro da sua jaqueta com um sol nas costas e do seu cabelo espetado igual ao sol, do cheiro que você tem bem no centro da nuca, do gosto amargo de menino que tem pressa de tomar banho que você tem bem no fundo da orelha. Lembro de você olhando a bunda da minha amiga e logo depois me dando um abraço forte e dizendo “cadê mesmo aquela revista que tem um texto lindo seu?”. E lembro da primeira vez que eu te vi e te achei meio feio, vesgo, estranho. Até que você me suspendeu no ar por razão nenhuma eu tive certeza que meu filho nasceria um pouco feio, vesgo e estranho.E então, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao mundo todo que não agüenta mais esse assunto. Ao mar, às criancinhas peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, à vizinha, aos cachorrinhos em meditação, à torta, aos carros, à qualquer um...eu pergunto: por que é que vocês todos estão tão cinza? Por que é que vocês não me ajudam? Por que é que todos vocês também ficam tão tristes quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também amam ele?
adaptado de Tati Bernardi