sexta-feira, 25 de abril de 2008

Não deixe

Não deixe quebrar, não deixe romper, não deixe virar grafite envelhecido e esquecido como qualquer contrato sem alma. Corra e cole os pedaços, corra e segure meus pés no chão porque eu estou quase voando, ou me faça voar novamente com você. Venha logo, traga de volta a minha certeza, não deixe, por favor, não deixe. Traga um agasalho para esquentar a minha falta de amor e ganhe em troca um ingresso para a minha fidelidade. Não espere o horário do trânsito livre, não espere ouvir o que você não quer, não espere a vida dar merda para colocar a culpa na vida. Eu ainda estou aqui por você, limpa, ilesa, sua. Mas cada milímetro do meu corpo me implora por vida, por magia, por encantamento. Por favor, me roube, não deixe, não esqueça do nosso pacto em não ser mais um daqueles casais que não conversam no restaurante e reparam tristes nos outros. Outro dia ouvi a música do Closer e lembrei o tanto que eu te amava, o tanto que ainda te amo, mas havia esquecido. Eu lembrei que enxergar sem pretensões você dormindo, com o seu ombro caído pra frente fazendo bochechas de criança na sua cara feliz, é a visão do paraíso pra mim. Eu preciso de força, eu preciso de ajuda, eu preciso que você me lembre de que eu não preciso de mais nada, que mais nada é tão perfeito e que podemos ser um casal imbatível. Caso tudo isso seja um trabalho inconsciente para me perder, parabéns, você está conseguindo. Mas se ainda existir dentro de você alguma esperança, eu preciso demais que você me abrace e me faça sentir aquilo novamente. É fácil, basta você querer, eu ainda quero tanto. Venha agora, não espere o músculo, a piada, o botão, o calo, a saudade, o arrependimento, o vazio. Eu preciso sentir que você ainda sente, eu preciso que o seu coração dê um choque no meu, eu preciso saber que seu peito ainda aperta um pouco quando eu vou embora e se espalha como borboletas nas veias quando eu chego. Tudo o que eu quero, quando ele me olha sem pressa e sorri nervoso sem saber porque a gente procura se perder, é que você desligue o DVD e me diga que esse filme é batido e não tem final feliz. Eu quero que você grite dentro da minha cabeça que não precisamos disso e que, por alguma razão, quando a gente se afasta a dor é maior do que todo o mundo que nos espera. Eu ainda preciso que você me ache bonita, se surpreenda, me comemore e esqueça um pouco de todo o resto pra se encantar sem medo do tempo. Não me tire a razão, não me tire a honra, não me faça estragar tudo só para sentir o vento na cara de novo e a música alta. Berre e assopre em mim enquanto é tempo. Me coma na cozinha, quebre a mesa, faça um escândalo, qualquer coisa para tirar o cheiro de velório do meu ventre. Eu ainda quero viver para você. Venha agora, ganhe a corrida, passe todo o resto pra trás, é você quem eu continuo eternamente esperando na linha final.

(Tati Bernardi?)

EU JÁ ESTIVE POR LÁ COMO LIDAR COM QUEM JÁ FICOU COM VOCÊ SEM ROUPA NUMA CAMA?

Outro dia fui ao cinema com um grande amigo. Sentamos um ao ladinho do outro, dividimos uma pipoca gigante, confidenciamos comentáriosbobos a respeito do filme. Essas coisas que amigos fazem. Tudo corria bem não fosse um incômodo generalizado que eu sentia na alma: “Peraí, mas eu já dormi com esse cara!”. Não adianta, não consigo ser natural. Homens têm razão quando não gostam de ver suas namoradas muito próximas de “amigos” que já experimentaram do doce. Sempre vai rolar uma piadinha do tipo “ah, mas EU sei que você não é realmente loira” ou ainda “pára de ajeitar essa blusa, EU já vi tudo que tem aí embaixo mesmo”. Quem já “esteve por lá” sempre vai se sentir, ainda que inconscientemente, um eterno possuidor de território, mesmo que o outro case ou mude de sexo.
São como vacas ou bois carimbados. E aí o meu amigo pergunta se eu quero ficar com o saco na mão, referindo-se à pipoca, claro. E eu não consigo disfarçar uma risada eminente. Depois ele pergunta se eu quero uma carona pra voltar pra casa ou prefiro “me virar”. E eu quase me vejo explicando pra ele, de novo, que não curto esse papo de me virar. Mas apenas sorrio e fujo dali o mais rápido possível. Uma vez pelada para uma pessoa, parece que você nunca mais se sentirá de roupa na frente dela. Pior é quando seu ex-parceiro sexual começa a namorar uma amiga. E todo mundo dá uma de civilizado e sai junto, afinal, “faz aí uns bons cinco anos que você saiu com o cara e nem rolou nada muito forte entre vocês”.
E você tenta desfocar o máximo que pode das lembranças, mas é só ele abrir a boca com aquela língua presa e a voz na salada, que você lembra que ele parece o Pato Donald tendo prazer. E não consegue disfarçar um pouco de pena que sente da sua amiga. Ela, mais cedo ou mais tarde, vai se encher daqueles gemidos de gás hélio que ele dá.
UMA MULTIDÃO DE “EX”
E aí você vai a uma festinha dessas que têm mais da metade das pessoas com quem você já conviveu ou trabalhou na vida e descobre, para seu falso desespero, que você aproveitou bem seus últimos dez anos. Muito bem, por sinal. E o incômodo na alma começa de novo. Primeiro você tem que ser simpática e natural com aquele uruguaio que teve de dispensar porque tinha mania de lamber seu braço. Creeeeedo.
Depois encontra um daqueles caras inesquecíveis e é inevitável sorrir que nem uma idiota mesmo que o assunto seja a morte de alguém. O cara te conta que está desempregado e você sorri. Que tem uma doença terminal e você sorri. E vai explicar pro cara que isso é um elogio? Pior é aturar aquele tapinha nas costas e aquele olhar de “ei, gata, lembra de mim?” de algum estagiário precoce que você pegou pra esquecer algum tio moleque. Claro que você lembra dele, teve que atender a mãe dele umas cinco vezes só em uma tarde! E aí você encontra o tio moleque também, e é inevitável ter que cumprimentá-lo“adultamente” mesmo lembrando que vocês adoravam interpretar astros do rock na frente do espelho. Simplesmente não dá para perguntar da CPMF ou das crianças e fingir que nada está acontecendo!
A regra é simples: se você já deu, não dá! Fica sempre aquele fantasma berrando na sua cabeça: “Eu já estive por lá! Eu sei onde ele tem pinta, eu sei onde ele tem cócegas, eu sei onde ele não tem domínio, eu sei que ele tem uma cueca rasgada, eu sei que ele acorda com baba branca ressecada, eu sei que ele imita o Pavarotti, eu sei que ele pede coisas estranhas...” E tudo isso passando pela sua cabeça enquanto você reclama do calor, do governo, da festa, do emprego, das contas para pagar... Quando tudo o que você mais queria era reclamar: meu amigo, por favor, me explica onde eu tava com a cabeça quando estive por aí?

Tati Bernardi

Mais uma eheh

Enquanto espirra o perfume de fragrância duvidosa, Emanuel pensa no tamanho da roubada em que está se metendo. Essa coisa de encontro às escuras, ou “blaindaiti” (como dizia seu amigo Cezar), definitivamente não é a melhor das idéias pra sair daquela melancolia danada. Tudo por causa da Glorinha. Mas agora já foi, são águas passadas, ela que seja feliz com o tal auxiliar administrativo do cartório, que em uma semana acabou com meses de planos. Caguei, diz ele se olhando no espelho. Um Alain Delon, diria sua avó. Ajeita a camisa, dá um último tapa no cabelo emplastado de gel e caminha até a porta. Pensa no momento de encontrar Isabela e suas pernas tremem. O suor começa. Puta merda, toca passar mais perfume!Essa coisa de conhecer gente pela internet é complicada. Você vê a foto ali, não sabe se a pessoa é aquela mesma, se não estão te enganando, se na hora de apalpar não é nada daquilo que você espera encontrar. Mas uma coisa o Cezar tem razão, precisa ir lá e conferir. Ainda mais no caso da Isabela, tão gatinha nas fotos, sorriso meigo, olhos delicados, peitos empinados, cintura fina, linda, linda, linda... mas, e se ela não for nada daquilo? Uma tremenda incerteza bate em Emanuel. Cara, essa menina não pode ser tão bonita como nas fotos. Por que uma gata dessas estaria numa sala de bate-papo? Garotas bonitas como ela não precisam disso, definitivamente.Emanuel olha para suas mãos, elas tremem. Volta para o espelho, se analisa dos pés à cabeça. Acho que não vou. Mais uma olhada. Cara, deve ser alguém zoando com a minha cara, se bobear é o próprio Cezar querendo me pregar uma peça. Nem ferrando que vou cair nessa. Melhor, vou deixar ele lá, plantado, achando que vou cair feito um bestão nessa zoeira dele.Pipoca, pijama, Zorra Total na TV. É isso aí, que sair que nada, parei, não vou cair na do Cezar. Pensa que acreditei nesse papo de Isabela... prefiro ficar aqui pensando na Glorinha. Enquanto isso, na porta do shopping está uma menina muito bonita, sorriso meigo, olhos delicados, peitos empinados, cintura fina, linda, linda, linda... seu nome é Isabela.
Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas e sempre diz que “chance” é sorte em francês.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Da verdade

Às vezes, nosso idealismo nos leva a confundir humildade com submissão, e terminamos humilhados. Às vezes, somos infantis quando precisamos tomar uma decisão madura. E, nos momentos em que o Universo nos pede um pouco de ousadia, terminamos por ser conservadores demais.
Não é fácil se guerreiro o tempo todo. Mais difícil ainda é aceitar o fato de que nem sempre estamos à altura do desafio apresentado. Mas isso faz parte da natureza humana; todo mundo tem o direito e o dever de sentir-se fraco de vez em quando.
Mas é preciso superar os próprios limites. Tudo é arriscado nesta vida. Às vezes pegamos uma tarefa que está além de nossa capacidade, e ela nos derruba no solo - junto com outras pessoas estavam ali só para nos ajudar.
O resultado, porém, é sempre positivo. As cicatrizes da experiência são mais belas que a operação plástica da acomodação.
(Paulo Coelho, blog no G1 21/04/2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

Ele é São `Paulino... ai ai ai

O CORÍNTHIANS É O BRASILDomingo, desembarcando em Salvador, ouvi a seguinte conversa entre um cidadão baiano e um presumível amigo, com quem ele dialogava pelo celular: “Pode botar água de coco no gelo e separar o uiscão que nós vamos ver o gavião cair!”. As incríveis audiências da última rodada do fim de semana revelaram que todo mundo estava ligado na definição do Campeonato. Seria natural imaginar que o sentimento de rivalidade entre torcedores de times diferentes de uma mesma cidade se acirrasse e mostrasse sua facção revanchista quando na eminência de assistir um revés do adversário. Mas nesse fim de semana, algo mais estava em jogo.Sendo o Corínthians um time tão popular, com uma imensa e incrível torcida espalhada pelo Brasil todo, não seria estranho imaginar que a sua situação delicada até o desfecho da rodada mobilizasse uma legião de fãs e adeptos. O Corínthians desperta em sua torcida uma devoção e uma fidelidade ímpar, indiscutível. O inverso disso é a antipatia das outras torcidas, numa mistura de hostilidade com inveja. Grandes paixões não são fáceis de assistir para quem está de fora.A torcida do Corínthians sofreu a dor que a impiedosa sequela da irresponsabilidade administrativa deixou em seu time de coração. E como é costumeiro e crônico no Brasil, quem pagou a conta não foram os articuladores de tal catástrofe. Toda a aventura com a MSI não demorou a cobrar seus direitos atrasados, não só sobre o futebol mas principalmente sobre os fiéis. O título de 2005, levantado pelo elenco vitorioso e estrelado que naquele tempo formava o alvi-negro, teve sua credibilidade manchada pelo escândalo da arbitragem e pelas declarações surpreendentes e reveladores do próprio presidente Dualib. Se não fosse por intermédio e pressão política da CBF, estaria em andamento uma CPI que pretendia esclarecer e desvendar o procedimento obscuro e suspeito com que foram feitas as transações milionárias dos tempos de Kia, e a maneira aparentemente ilícita da entrada de toda essa grana. Para não atrapalhar a indicação do Brasil para sediar a Copa, a CBF preferiu abafar esse caso para não riscar a imagem do futebol brasileiro perante a FIFA!O desfecho de tamanha rapinagem não demorou muito para acontecer. Em menos que dois anos o time do Parque São Jorge perdeu suas “estrelas”, entrou em colapso e botou uma safra de jovens jogadores promissores na fogueira, para serem sacrificados e injustamente resonsabilizados pelo rebaixamento indesejado. Crueldade! A penúria do clube, endividado e abandonado, se refletiu diretamente no campo. A pressão, a suspeita, a cizânia, a traição, a falta de transparência devem, certamente, ter invadido as quatro linhas e criado um clima de instabilidade que comprometeu o desempenho até mesmo de quem sabe jogar bola.O aspecto mais lamentável de toda essa situação é ver que todo o amor que a torcida corintiana despende e entrega para o seu time não encontrou nunca correspondência na cúpula que dirigiu o clube para esse estado deplorável de indigência e o conduziu lenta e melancólicamente para a Segunda Divisão. E o paradoxo é que, nesse momento, a única força que o Corínthians tem para acreditar no acesso está justamente na paixão de sua torcida! O vergonhoso atraso para entrar em campo para o jogo de domingo é revelador da falta de grandeza de seus dirigentes desesperados. O castigo veio no primeiro minuto.Se há alguma coisa que estava anunciada é que uma hora o preço daquela aventura seria cobrado. Mas a fatura sempre bate na porta errada. Jerry, Cícero e demais corintianos não mereciam isso.
Nando Reis. 07/12/2007

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O preferido!

Ela existe...
Encontrei a danada, mas ela fugiu. Pouco depois a encontrei de novo, mas ela disse que estava atrasada e eu entendi com preguiça de filosofar. Mais tarde ela voltou sem falar nada e se enfiou comigo embaixo das cobertas, quentinha. Só foi embora quando o relógio despertou rasgando o conforto, estava frio. Durante o dia ela voltou em situações bobas como o sorriso do menino mais lindo do mundo, a bolacha de chocolate que eu lembrei que tinha na gaveta e um título engraçadinho que eu fiz e foi aprovado pelo cliente. Ela ia e voltava, ia e voltava: como a vida. Linear são os batimentos cardíacos da morte. A noite ela apareceu na porta do meu banheiro, fez tanta força que entrou mesmo com a porta fechada. Focinhou a porta do box e me mostrou a bolinha de brinquedo me chamando para brincar, ao mesmo tempo entrou pela janela revestida de cheiro de hambúrguer. Veio em dose dupla. As vezes ela desaparece durante tanto tempo que me falta o ar. Dá uma saudade louca, ela deixa um vazio depressivo, um buraco. Ela me deixa mais uma e eu odeio ser mais uma. Não posso negar a dependência que eu tenho dela. Mas eu aprendi, finalmente, eu aprendi que ela não aparece apenas numa grande história de amor, numa viagem com tudo pago para Paris ou numa bufunfa boa lá na minha conta bancária carente. Ela também dá as caras pelo lado simples da vida, ontem apareceu numa tomada. Eu estava numa sala de espera lotada, esperando para abrir as pernas naquela cama da tortura e ouvir da minha ginecologista que sim, vai doer, mas é para o meu bem. E ela apareceu. Eu precisava recarregar meu celular para saber o que o esquisito tinha deixado na minha caixa postal e uma tomada apareceu do meu lado, foi só afastar um pouco as revistas Caras e outras do mesmo gênero (enquanto você espera para saber como vai sua vagina você fica sabendo como vai a vagina das outras). E lá estava o recado dele, esquisito como sempre, mas com aquela voz lacônica e charmosa. A felicidade entrou com o pé na porta e sentou ao meu lado. Eu não estava mais sozinha esperando o espéculo. O trânsito todo parado e ela acena no carro ao lado, depois morre de vergonha e toma bronca do pai para sentar direito na cadeirinha. O dia meio cinzento, vai-não-vai e de repente ela surge amarela e esquenta a vida. Ela mora numa gaveta cheia de bobeirinhas lá em casa, que tem nariz de palhaço de festa louca, cartinha de amor antiga, fotos da minha bochecha quando eu tinha cinco anos e lembranças de carinho em flores secas. Ela toma banho comigo quando a água leva embora coisa ruim e renova. Ela é fantasma quando eu lembro do meu avô dizendo que eu era a mulher mais linda do mundo. A mulher mais linda do mundo pequeno do meu avô. A felicidade mora num mundo pequeno seu e não naquele grande que faz você se perder demais. A felicidade é simples, e quando você descobre isso ela deixa de ser uma espera e passa a ser um minuto, um segundo. E é de minutos e segundos que se faz a vida. E aí você perde menos tempo esperando e mais tempo vivendo. Entre o piegas e o chavão, é assim que ando por aí vivendo a vida intensamente sem esperar momentos intensos. Você já tentou? Já tentou não imaginar a sua felicidade na outra festa que você estaria se não estivesse nessa e encontrar a sua felicidade onde você está? Tente, pode ser numa música boba, pode ser num amigo que você não via há muito tempo. Pode ser morrendo de rir de uma noite mico, por que não? Eu sempre esperei viver uma história de cinema, ouvir cantadas de filme francês, ganhar salário de estrela, ter amigos de sitcom, corpo de capa de revista e enterro de celebridade. Ai eu lembrei que os filmes de que eu mais gosto são aqueles despretenciosos que contam a história de uma pessoa idiota como eu.
TB

P não sentir dor!

Para não sofrer eu vou me drogar de outros, eu vou me entupir de elogios, eu vou cheirar outras intenções. Vou encher minha cara de máscaras para não ser meu lado romântico que tanto precisa de um espaço para existir ridiculamente. Não vou permitir ser ridícula, nem uma lágrima sequer, nem um segundo de olhar perdido no horizonte, nem uma nota triste no meu ouvido. Eu sei o quanto vai ser cansativo correr da dor, o quanto vai ser falso ignorar ela sentada no meu peito. Mas vou correr até minha última esquina. Vou burlar cada desesperada súplica do meu coração para que eu pare e sofra um pouquinho, um pouquinho que seja para passar. Suor frio da corrida, sempre com sorriso duro no rosto e o medo de não ser nada daquilo que você me fez sentir que eu era. Muita maquiagem para esconder os buracos de solidão. Muita roupa bonita para esconder a falta de leveza e de certeza do meu caminho. E por que vendo tanto meu corpo e tão pouco minha alma? Porque quero ver você comprando o que realmente quer e não enganando querer para levar a promoção. Estou triste do tamanho do buraco sem vida que você deixou em mim, uma concavidade sonhadora que ainda pulsa um desejo que ao mesmo tempo enoja. Mas para não sentir dor eu vou jurar ao último ouvido do meu universo o quanto você é descartável. O quanto sua molecagem não permitiu nenhuma admiração de minha parte. Para não sofrer não vou permitir minha cabeça no travesseiro antes do cansaço profundo e sem cérebro. Não vou permitir admirar coisas da natureza porque talvez eu me lembre de você ao ver algo bonito. Não vou permitir silêncios porque é aí que o meu fundo transborda e a tristeza pode me tomar sem saída. Eu vou continuar deixando a minha cabeça me martelar porque toda essa confusão é ainda menos assustadora do que a calmaria da verdade. A verdade é a frieza do mundo, é a podridão dos desejos, são as mentiras que a gente inventa para os outros e acaba acreditando. A verdade é que mais cedo ou mais tarde você será traído, porque todo mundo tem medo de viver a entrega. A verdade é que ninguém se entrega porque ninguém se tem. A verdade é que não estamos aqui, estamos em algum lugar seguro vivendo nossas vidas medíocres. A verdade é que todo esse perfume é vergonha de nossa essência, todas essas marcas são vergonha do nosso corpo, todo esse charme despretensioso é vergonha de nossas fraquezas. A verdade é que nada é inteiro porque até o inteiro para ser todo precisa ter seu lado vazio. A verdade é que não dá para fugir da dor, e eu continuo correndo, correndo, correndo e não saindo do mesmo lugar.
Tati Bernardi

Trabalho Escravo, Trabalho Forçado, Escravidão Moderna

Cerca de 12,5 milhões de pessoas, são vítimas de trabalho forçado, atualmente, em todo o mundo. Pesquisa realizada pelo Programa de Ação Especial de Combate ao Trabalho Escravo, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que o trabalho forçado é um problema mundial. Afeta tanto países subdesenvolvidos quanto desenvolvidos. Nesta conjuntura, o continente asiático lidera o ranking com quase 9,5 milhões de pessoas submetidas a essa situação, seguido por América Latina e Caribe, com 1,3 milhões. Oriente Médio e Norte da África integra a lista, com 260 mil, e os países industrializados e em transição somam pouco mais de 0,5 milhão.
Dentre esses casos, quase 10 milhões de pessoas são exploradas por agentes privados. Mais de 2,5 milhões, a partir do tráfico de pessoas. O grupo ainda se subdivide por tipo de trabalho forçado, sendo a maior parte vítima de exploração econômica, seguido por explorações impostas pelo estado ou militares e pela exploração sexual comercial. Nesta última fatia, a quantidade de mulheres chega a 98%, segundo o Programa da OIT.
Usualmente, usa-se o termo “trabalho escravo” para definir a prática de trabalho forçado, em condições precárias e insalubres. Mas existem diferentes formas de se referir a essa prática. Em países como o Paquistão, por exemplo, há nas leis definições complexas de “servidão por dívida”, as quais se encaixam nas características de trabalho forçado. Na primeira Convenção sobre Trabalho Forçado, de 1930, a OIT definiu trabalho forçado, para fins de direito internacional, como “todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob ameaça de sanção e para o qual ela não tenha se oferecido espontaneamente”.
Ainda segundo a Organização, o trabalho forçado tem elementos básicos que o caracterizam: é imposto sob ameaça ou punição e executado involuntariamente. As formas de ameaças e punições podem existir de diversas formas. A mais agressiva, a violência física com ou sem confinamento, acaba por se repetir em muitos casos, e também por vezes é estendida a familiares do trabalhador. A ameaça psicológica, não menos agressiva, também é freqüente. Depoimentos de imigrantes mostram que as ameaças tratam sobre possíveis denúncias a autoridades de imigração, sobre a situação ilegal do trabalhador no no país. Por vezes, empregadores retêm os documentos do trabalhador, impossibilitando-o de fugir.

Luiz Machado, assistente do Projeto do Combate ao Trabalho Escravo da OIT, afirma que grande parte dos imigrantes não tem o exato conhecimento da situação. “Em geral, são iludidos e enganados. Chegam ao país com outra idéia de trabalho. Como alguns vêm de regiões pobres, passam a acreditar que em determinado país podem conseguir juntar dinheiro para envia as famílias ou mesmo levá-los para morar em outro país. Pouquíssimos conseguem realizar o plano”, relata. A situação que define trabalho forçado é dada não pelo tipo de atividade desenvolvida, e sim pela relação de uma pessoa com o trabalhador. Nem mesmo em casos onde a tarefa executada é ilegal, como a prostituição, em algumas localidades: se uma mulher é obrigada a se prostituir, está em situação de trabalho forçado.

AMÉRICA LATINA
As profundas desigualdades sociais dentro da América Latina acabam por provocar uma intensa movimentação de indivíduos de países mais pobres e menos desenvolvidos, como Bolívia, Paraguai e Peru, para países onde possam encontrar, principalmente, oportunidades de empregos. A facilidade de movimentação dentro do próprio continente também é característica desse fluxo de pessoas. As principais rotas de fuga são Brasil e Argentina. Na cidade argentina de Córdoba, por exemplo, há um grande número de residentes bolivianos, entre os quais são freqüentes as denúncia de abusos dos direitos trabalhistas contra exploradores tanto bolivianos como argentinos.
Problemas com a prostituição infantil também estão presentes em pequenas cidades no interior da província. Os mecanismos para captura de crianças e adolescentes são os mesmos em diferentes países, inclusive no Norte e Nordeste do Brasil. Casais vão a uma comunidade pobre com a desculpa de fazer turismo. Levam alimentos e ao ver uma família com vários filhos, propõem levar um deles para lhe dar melhores condições de vida e possibilidade de estudo na cidade grande. No entanto, uma vez que se vão, não voltam mais. As meninas são levadas para exercer a prostituição, trabalho infantil doméstico ou são vendidas para trabalho escravo.
Estranho imaginar pais vendendo filhos. Mas não se observarmos localidades com Santiago Del Estero, onde o ambiente hostil faz com que crianças morram por desnutrição, contaminação das águas e por não ter acesso a um sistema de saúde preventivo e efetivo. Some-se a isso a falta de instrução dos pais e uma realidade onde ainda é encontrada uma forma de trabalho antiga, em que o pagamento de todo um dia de trabalho é igual a um pacote de açúcar, erva e arroz, que não chega a sustentar toda a família. Em alguns casos, existe a produção de artesanato de grande qualidade, mas os artesãos recebem pouco por peça, que é revendida mais tarde por preços muito maiores.
Realidades como essa acabam por levar homens e mulheres a acreditar em promessas de um melhor trabalho, com maior remuneração, em grandes cidades ou em outros países. Casos dos bolivianos que viajam à Argentina, para trabalhar nos campos de cultivos de verdura, e no Brasil, para se empregarem em oficinas têxteis de cidades como São Paulo. No trato, o empregado entrega seus documentos ao empregador, por “questões burocráticas”, e recebe dinheiro para custos da viagem. Os pacotes também incluem moradia, alimentação e, algumas vezes, vestimentas. Mas, quando chegam ao destino, descobrem que tudo o que foi recebido é cobrado, e o valor do salário não custeia praticamente nada.
Ficam em péssimas moradias, as peças produzidas valem centavos, tudo o que é recebido ou consumido é cobrado. Aprisionados, chegam a trabalhar de 16 a 20 horas por dia. Geralmente em porões mal ventilados, sem acesso ao mundo exterior – por causa da situação de irregularidade. E é comum que, além de sofrerem processo de confinação familiar, sejam separados dos conterrâneos pelo empregador, para evitar assim qualquer tipo de contato.
A assistente social da organização não governamental Pastoral do Migrante, Ana Shirley Barradas, afirma que a maioria dos imigrantes vem de províncias muito pobres, alguns de etnias marginalizadas, e não tem o exato conhecimento da situação. “Mesmo os que têm um pouco de noção do que possa acontecer preferem arriscar, por que não enxergam outra oportunidade em seu local de origem”, conta. Segundo Shirley, todos os dias a Pastoral recebe denúncias de trabalho irregular e forçado de imigrantes. A Pastoral do Migrante estima que existam hoje, na capital paulista, de 600 mil a 700 mil latino-americanos, dos quais 40% em situação irregular. Os bolivianos, segundo relatos, apresentam quadros de anemia e desnutrição. Por causa da falta de ventilação, contraem doenças respiratórias contagiosas, como a tuberculose. Mulheres têm seus filhos dentro do próprio alojamento. Médicos só são procurados em casos extremos.

POBREZA E ÊXODO
A Bolívia hoje tem uma situação sócio-econômica complicada, com os piores indicadores sociais da América do Sul. No total são 8 milhões de habitantes, vivendo em situações precárias. De acordo com o ranking mundial de desenvolvimento humano, medido anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Bolívia está na 114ª posição de um total de 177 países – números de 2004. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) boliviano é de 0,681. Para se ter uma exata noção, o Brasil ocupa a 72ª posição no ranking da PNUD e tem um IDH de 0,775. No Paraguai, o sistema não chega a ser diferente. O alto nível de corrupção em grande parte das instituições oficiais e a falta de trabalho faz com que seja alto o número de mulheres e meninas que se prostituem. E chegam a isto muitas vezes por meio da força.
O problema envolvendo o trabalho forçado de latino-americanos é bem conhecido entre as autoridades brasileiras. Para o combate dessa prática foi criada uma força-tarefa formada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), Delegacia Regional do Trabalho (DRT), Polícia Federal (PF) e Ministério da Justiça. Como infelizmente, as operações de fiscalização não asseguram qualquer tipo de direito trabalhista ao imigrante, pois ele está em uma situação irregular no Brasil, e também podem levar à deportação do trabalhador.
O juiz do Trabalho Titular de Vara na 15ª Região, Firmino Alves Lima, mestre e doutorando em Direito do Trabalho pela Universidade de São Paulo e integrante da Comissão de Direitos Humanos da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, trata sobre o tema no artigo “A exploração de trabalhadores bolivianos em São Paulo – Uma triste realidade”. Ele sugere mudanças no Estatuto do Estrangeiro, que veda o exercício de qualquer atividade remunerada mesmo àqueles que tenham visto de turista, temporário ou de trânsito – exceção é feita quando o estrangeiro tem uma comprovação da entidade que o contratou.
Mas o problema não é exclusivo dos países da América do Sul, ele se estende até o México, onde organizações humanitárias registram casos de milhares de camponeses empregados em condições análogas à de escravidão na construção de luxuosos hotéis nos redutos de veraneio de Cancun, Riviera Maia e Quintana Roo. Os trabalhadores estariam vindos de zonas rurais e trabalhando de forma irregular, sem seguro médico, jornadas acima das 8 horas diárias e salários baixíssimos. Na maioria dos casos, os trabalhadores ficam por três ou quatro meses e acabam voltando para casa com problemas ligados ao alcoolismo ou enfermidades decorrentes da estada em galpões insalubres ou em parques públicos, do consumo de alimentos de baixa qualidade e da exposição à transmissão de doenças como a Aids, pelo contato com prostitutas.

IMIGRAÇÃO CIRCULAR
Nos últimos anos, os países da União Européia têm tomado medidas para facilitar a imigração legal ligada à demanda de mão-de-obra dos mercados de trabalho nacionais, como forma de evitar o trabalho em condições precárias ou irregulares. Em um encontro em Stratford-upon-Avon na Inglaterra, ministros do Interior do Reino Unido, Itália, Espanha, Polônia, Alemanha e França concordarem com a possibilidade de receber cidadãos provenientes de nações pobres, permitindo-os ficar de 3 a 5 anos na União Euroéia, desde que tenham contratos temporários. A proposta, também chamada de imigração circular, é que esses imigrantes possam juntar dinheiro, enviar a suas famílias e voltar no tempo correto para suas localidades de origem, mais qualificados profissionalmente. Seria uma forma de combinar políticas de desenvolvimento social com as regras de imigração.
Alemanha e França defendem que sejam discutidas cotas nacionais para países que não pertencem à União Européia, facilitando a deportação de cidadãos que não apóiam tais medidas. O presidente francês Nicolas Sarcozy já declarou à imprensa que a questão da imigração é mais dramática do que política. “Há vozes, tanto da direita como da esquerda, unidas em ver a imigração como um tópico político, mas como um drama humano”, disse.
Calcula-se que no ano de 2004, cerca de 1,4 milhões de imigrantes ilegais tenham entrada na União Européia. Um número que, apesar de todas as formas de controle e repressão, não pára de aumentar. Grande parte destes imigrantes é procedente do norte da África, Turquia, Índia, Paquistão, África Subsahariana e dos Balcans. O questionamento mais crucial é que na Europa, apesar de ser criada uma cultura de racismo e xenofobia, a população envelhece e quase não se renova, e a escassez de mão-de-obra cresce. Estudos apontam que até o ano de 2050 seja necessária a chegada de 44 milhões de imigrantes para ocupar postos de trabalho.
Segundo Denúncias do Observatório Europeu do Racismo e da Xenofobia, o aumento dos casos de violência racial e da discriminação decorre do medo do desemprego, insegurança em relação ao futuro sobre as condições sociais e as políticas dos governos. Os movimentos contra imigrantes apontam que os europeus preocupam-se ainda com uma possível perda da identidade nacional, por um possível predomínio dos estrangeiros. Há também o medo de máfias que se proliferam e se dedicam ao tráfico de mão-de-obra clandestina, prostituição, comércio de drogas, levando ao aumento da criminalidade.
Na União Européia, as leis sobre imigração e asilo político variam muito de país para país, embora haja uma busca por unificação das mesmas. Estima-se que hoje, em toda Europa, vivam cerca de 3 milhões de pessoas nessa situação. E o número de pessoas que pedem refúgio não pára de crescer. Em 2001, o total de pedidos registrados foi de quase 400 mil.


U.E Pedidos de asilo por país 2001
Alemanha
88.363
Grã-Bretanha
70.135
França
47.363
Holanda
32.579
Áustria
30.135
Bélgica
24.549
Suécia
23.513
Dinamarca
12.403
Irlanda
10.324
Itália
09.755
Espanha
09.219
Grécia
05.499
Finlândia
01.651
Luxemburgo
689
Portugal
192
Fonte: ACNUR



MAINMAR E PAQUISTÃO
O trabalho forçado imposto diretamente pelo Estado também preocupa o cenário mundial. Apesar do número de casos ser pequeno, o desrespeito dos direitos fundamentais é extremo. É o que acontece em Mianmar, sul da Ásia – que até 1989 era chamada República Social da Birmânia. As Forças Armadas que governam o local desde o golpe de Estado de 1962 demonstraram escasso respeito pelas liberdades políticas e civis e pelos direitos humanos. A dissensão e os proclamas de liberdade costumam se chocar com a força bruta, na forma de cassetetes e balas.
A imposição de trabalho forçado por militares em Mianmar tem chamado atenção da comunidade internacional pela forma como é realizado. Denúncias feitas a funcionários da OIT mostram casos chocantes, como o de uma criança levada a força para um centro de recrutamento do exército e obrigada a se alistar sob ameaça de prisão. Escapou e, recapturada, foi condenada a seis meses de prisão, os quais permaneceu no serviço militar.
Outras denúncias tratam de grupos de famílias que eram obrigadas a trabalhar, recebendo cotas, também sob pena de prisão. Aldeias eram obrigadas a dar contribuições em dinheiro, enquanto veículos e seus condutores eram requisitados para transporte de materiais, cultivo de terras – que pertenciam a agricultores e foram confiscadas para a instalação desse comando militar. Relatos de aldeões do município de Hinthada apontam que eles foram requisitados para montar sentinela por 24 horas em regime de turnos. Já 45 habitantes de Rakhine tiveram de trabalhar no fornecimento de brita ou em projetos de construção de pontes. Durante vários dias foi requisitada a mão-de-obra de 40 aldeias para a manutenção anual de rodovias.
A ameaça policial de prisão não é a única forma de represália no país. No ano de 2004, um estudante foi processado pelas autoridades locais por ter se negado a trabalhar. Outro estudante perdeu a vaga na faculdade pela mesma acusação. A situação no país foi seguida de perto pela comunidade internacional, com a OIT assumindo a liderança de chamar a atenção para continuadas práticas de trabalho forçado.
O trabalho forçado imposto pelo Estado se estende também a alguns países da Ásia Central, que ainda trazem consigo práticas realizadas na era soviética, como Tajiquistão e no Uzbequistão, onde trabalho forçado na indústria algodoeira tem afetado principalmente mulheres, crianças e jovens estudantes. Nas estações de plantio e de colheita, eles são transportados para os campos de algodão e forçados a trabalhar por pouca ou nenhuma remuneração. O desrespeito chega ao ponto de mulheres serem enviadas pelas famílias de acordo com uma cota pré-estabelecida, enquanto as crianças participam como parte do currículo escolar.
Em países africanos, os relatórios apontam seqüestros e incorporação forçada a grupos militares governamentais ou apoiados por governos, assim como de forças rebeldes, juntamente com o uso de trabalho forçado adulto e infantil, em contexto de conflito militar. No Paquistão, sudoeste da Ásia, a situação de trabalho forçado é bem mais complicada, acredita-se que cerca de pelo menos um milhão de pessoas encontram-se nessa situação, por causa da prática conhecida como Peshgi. O Peshgi é uma antiga prática de endividamento, em que pessoas pobres pegavam dinheiro e mantimentos emprestados, em propriedades rurais, e deixava como garantia o seu próprio trabalho e o de sua família. Nos casos onde as dívidas seriam muito altas, foram passadas de geração a geração. Aumentadas por mecanismos que as tornam impagáveis, essas dívidas deixam os trabalhadores e seus filhos ligados à terra e a seus senhores por anos.
A realidade do Paquistão se assemelha à servidão na Europa, no período do feudalismo, quando os senhores de terra recebiam parte da produção de seus servos, os trabalhadores são considerados como patrimônio, na relação capitalista em busca do lucro. O país tem um contingente populacional de 163 milhões de habitantes –o Brasil tem 180 milhões, com uma área dez vezes maior. Cerca de 35% dos habitantes estão abaixo da linha de pobreza. Aproximadamente a metade da população está na agricultura e 44% das terras estão nas mãos de apenas 5 mil famílias. O problema se concentra mais ao centro/sul do país, principalmente nas províncias de Punjab e Sindh.
No ano de 1992 o Peshgi foi declarado ilegal, mas a sua erradicação está longe de acontecer, devido a interesses da manutenção da situação pelos grandes donos de terra e a falta de garantia do governo local. O trabalho escravo no Paquistão não se concentra apenas nas propriedades rurais, mas acaba se estendendo também ao setor de minerações, produção de tijolos e de carpetes.


O que diz a legislação

A Legislação que proíbe de forma universal trabalhos forçados, em condições irregulares, punições e toda forma degradante de trabalho, não é uma criação do século 21. O fim da escravidão e de práticas análogas à escravidão é um princípio reconhecido por toda a comunidade internacional. Há diversos acordos e convenções internacionais que tratam da escravidão contemporânea. A OIT aborda o tema nas convenções número 29, de 1930, e 105, de 1957. O assunto também é abordado na Carta de Direitos Humanos.
A Conferência Geral da OIT, reunida em Genebra em 1957, acordou com os países membros a abolição total do trabalho forçado e da servidão por dívida. A partir do documento, ficam vedados nos países membros da OIT sistemas de pagamento que privem o trabalhador da real possibilidade de deixar o emprego; medidas coercitivas, punições por ter ou expressar opiniões políticas ou pontos de vista ideologicamente opostos ao sistema político, social e econômico vigente; por participação em greves, medida de discriminações racial, social, nacional ou religiosa. Os países se comprometeram em adotar medidas para assegurar a completa abolição do trabalho forçado e do tráfico de pessoas para estes fins.
Artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelecem que todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. Condenam qualquer distinção ou ato que contrariem o direito a igual remuneração por igual trabalho, repouso e lazer – inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas. Ainda segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante, nem a interferências na sua vida privada e familiar. O documento declara que ninguém será mantido em escravidão ou servidão. A escravidão e o tráfico de escravos estão proibidos em todas as suas formas.
No Brasil, o artigo 149 do Código Penal, que trata do crime de submeter alguém as condições análogas a de escravo, existe desde o início do século passado. E a Constituição relaciona todos os direitos básicos do trabalhador no seu Capítulo II, “Dos Direitos Sociais”.



Anexos:
Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948)
Artigo 2ºI) Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.II) Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.
Artigo 3ºTodo o homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4º Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos estão proibidos em todas as suas formas.
Artigo 5º Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo 12º Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques a sua honra e reputação. Todo o homem tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Artigo 23ºI) Todo o homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.II) Todo o homem, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.III) Todo o homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como a sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.IV) Todo o homem tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses.
Artigo 24ºTodo o homem tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.
Convenção 105- Relativa a abolição do Trabalho Forçado (1957)
Artigo 1º
Todo País-membro da Organização Internacional do Trabalho que ratificar esta Convenção compromete-se a abolir toda forma de trabalho forçado ou obrigatório e dele não fazer uso:
a) como medida de coerção ou de educação política ou como punição por ter ou expressar opiniões políticas ou pontos de vista ideologicamente opostos ao sistema político, social e econômico vigente;
b) como método de mobilização e de utilização da mão-de-obra para fins de desenvolvimento econômico;
c) como meio de disciplinar a mão-de-obra;
d) como punição por participação em greves;
e) como medida de discriminação racial, social, nacional ou religiosa.

Constituição Federal Brasileira (1988)
Art. 227º - É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Código Penal Brasileiro (1940)
Redução a condição análoga à de escravo
Art. 149º – Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto:
Pena – reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à
violência.
§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem:
I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho;
II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.
§ 2º - A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido:
I – contra criança ou adolescente;
II – por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.

Estatuto da Criança e do Adolescente (1990)
Art. 4º - É dever da família, da comunidade, da sociedade
em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.Art. 60º. É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz.
Personagens:

*Juan Martins- 17 anos; Dolores Martins 33 anos, Juana Martins 34 anos.

Os irmãos Juan Martins, 17 anos; Dolores Martins, 33 anos, e Juana Martins, 34 anos, vieram da Bolívia atraídos por uma proposta de emprego em São Paulo. Trabalhariam e morariam na casa de um também boliviano, chamado Gonzáles, e receberiam R$ 800 como operários em um atelier de roupas. Chegaram depois de longa viagem em um ônibus cheio de outros imigrantes bolivianos. “O primeiro impacto foi a casa: as condições assustariam qualquer um”, conta a assistente social Ana Shirley Barradas, que mais tarde atenderia os três irmãois na Pastoral do Migrante.
Mas mantiveram-se firmes, resignados pela impossibilidade de voltar e amparados na ilusão de conseguir juntar dinheiro, enviar para a família e, quem sabe, até construir algo para os três em São Paulo. Contudo, não sabiam que teriam que pagar pela passagem, abrigo, alimentação, e que receberiam na verdade de R$ 0,20 a R$ 0,80 por peça confeccionada. Nessas condições, juntar algum dinheiro e quitar as dívidas seria impossível.
Na casa, moravam e trabalhavam dez pessoas, entre elas crianças e adolescentes, em condições precárias e insalubres. Era total a falta de higiene, a alimentação era a mais simples e as pessoas dormiam em qualquer lugar. A jornada de trabalho diária começava às 7h e só terminava às 22h, com uma hora de almoço e 15 minutos de intervalo pela parte da tarde. Inclusive nos finais de semana, já que o dono do atelier os amedrontava, dizendo que os imigrantes poderiam ser presos a qualquer momento por estarem em situação irregular no Brasil
Durante os oito meses que os três irmãos ficaram na casa, Juan saiu algumas vezes para jogar bola. Conseguiu fazer contato com outros bolivianos e fugiu levando consigo as duas irmãs. Acaram indo para outra casa onde trabalhavam em serviço semelhante ao anterior. Quando os irmãos achavam que o pesadelo tinha terminado, Juan foi seqüestrado, por Gonzáles e severamente espancado. Em troca do menino, Gonzáles exigiu de Dolores e Juana a quantia de R$ 5 mil. Sem escolha, as irmãs procuraram ajuda na Polícia Federal que conseguiu resgatar o adolescente.
Atualmente, Gonzáles continua preso. Juan, Dolores e Juana conseguiram se empregar e legalizar a situação no país, por intermédio da Polícia Federal, Pastoral do Migrante e Ministério do Trabalho.

*Os nomes reais dos personagens foram trocados por nomes fictícios por questão de preservar os personagens.


Júlio Martins 54 anos.

O trabalho escravo ou irregular faz vítimas também entre brasileiros vivendo em seu próprio país. É o caso de Júlio Martins, 54 anos, trabalhador rural, quase sem estudo. Ele conta que foi convidado a trabalhar em uma fazenda no sul do Pará, por um empreiteiro (como os agenciadores são conhecidos na região). Logo que o agricultor chegou ao local recebeu material para trabalhar, alimentos e fumo. Foi a primeira de muitas dívidas que iria contrair. Segundo Júlio, tudo o que recebia era contabilizado como saldo negativo.
Durante três meses, ele enfrentou uma jornada de mais de 10 horas diárias no roçado da fazenda, que ficava a 20 km da estrada que cortava o município de Marabá. Na propriedade, os filhos dos trabalhadores ajudavam os pais. Júlio conta que era comum ver crianças e adolescentes carregando galões de 5 litros com água.
Júlio Martins e outros trabalhadores rurais foram retirados da fazenda após uma investigação conjunta da Polícia Federal e do Ministério do Trabalho, que promovem forças-tarefas para libertar pessoas que vivam e trabalhem em condições impróprias na região. Ele conseguiu receber os pagamentos atrasados e foi encaminhado para uma instituição não governamental que tem como objetivo recolocar ex-escravos no mercado de trabalho formal.
Júlio hoje exerce funções de zelador e jardineiro em uma siderúrgica no Pará. "Agora o trabalho é bem melhor, com hora para começar e terminar, sem todo aquele esforço. Por mim, ficava aqui até o final da minha vida”, afirma.




Quadro 1.
Identificação de Trabalho Forçado na Prática
Falta de consentimento (natureza involuntária do trabalho) (“itinerário” do trabalho forçado)
􀀢 Escravidão por nascimento ou por descendência de escravo / servidão por dívida
􀀢 Rapto ou seqüestro
􀀢 Venda de pessoa a outra
􀀢 Confinamento no local de trabalho – em prisão ou em cárcere privado
􀀢 Coação psicológica, isto é, ordem para trabalhar, apoiada em ameaça real de punição por desobediência
􀀢 Dívida induzida (por falsificação de contas, preços inflacionados, redução do valor de bens ou serviços produzidos, taxas de juros exorbitantes, etc.)
􀀢 Engano ou falsas promessas sobre tipose condições de trabalho
􀀢 Retenção ou não pagamento de salários
􀀢 Retenção de documentos de identidade ou de pertences pessoais de valor Ameaça de punição (meios de manter alguém em regime de trabalho forçado)
􀀢 Violência física contra o trabalhador ou sua família ou pessoas próximas
􀀢 Violência sexual
􀀢 (Ameaça de) represálias sobrenaturais
􀀢 Prisão ou confinamento
􀀢 Punições financeiras
􀀢 Denúncia a autoridades (polícia, autoridades de imigração, etc.) e deportação
􀀢 Demissão do emprego atual
􀀢 Exclusão de empregos futuros
􀀢 Exclusão da comunidade e da vida social
􀀢 Supressão de direitos ou privilégios
􀀢 Privação de alimento, habitação ou de outras necessidades
􀀢 Mudança para condições de trabalho ainda piores
􀀢 Perda de status social

Fonte: Relatório Global do Seguimento da Declaração da OIT sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho.

Quadro 2.

Distribuição regional de trabalho forçado


Número de pessoas em situação de trabalho forçado
Ásia e Pacífico
9.490.000
América Latina e Caribe
1.320.000
África Subsaariana
660.000
Países Industrializados
360.000
Oriente Médio e Norte da África
260.000
Países em transição
210.000
Mundo
12.300.000

Fonte: Programa de Ação Especial da OIT de Combate ao Trabalho Forçado (SAP-FL)


Texto: Alethea Bernardo